Logan

Hugh Jackman encontra no faroeste um réquiem para Wolverine

Moonlight - Sob a Luz do Luar

A crítica do grande vencedor do Oscar 2017

Oscar 2017

A nossa cobertura da premiação deste ano!

Cinquenta Tons Mais Escuros

Série ganha novo fôlego com mudança de eixo, mas se mantém presa a velhos problemas

Estrelas Além do Tempo

Filme emancipa protagonistas como heroínas contra opressão pelo esquecimento

sábado, 25 de março de 2017

Crítica: Fragmentado

"Volta" de Shyamalan concilia fábula e horror com leves rupturas.

Por Pedro Strazza.

Se houve um momento crucial à carreira de M. Night Shyamalan nestes quase 20 anos de altos e baixos na relação com crítica e público, este talvez seja a parceria que o cineasta firmou com a Blumhouse Productions de Jasom Blum. Foi uma decisão que atendeu aos dois lados: se a produtora de terrores de baixo orçamento ganhou um nome de peso para impulsionar as já bastante rentáveis bilheterias de suas produções, o diretor voltou a trabalhar seu cinema de fábula dentro dos moldes do terror que o formou, estando agora melhor conectado a regras e convenções de subgêneros baratos que possibilitam uma melhor e mais imediata aproximação de sua narrativa com o público.

Este retorno é benéfico a Shyamalan também por uma questão de auto-consciência: se em trabalhos anteriores a este período suas belas histórias de fé e espírito ora ou outra esbarravam no posicionamento de que tipo de produção ele queria fazer (algo que com certeza gerou as recepções divididas de obras como A Dama na Água, Fim dos Tempos e A Vila), sua filiação ao terror resolve esta questão ao mesmo tempo que o permite trafegar entre gêneros distintos (a comédia, o filme familiar e também o horror) com melhor naturalidade. É um misto de maior habilidade e precisão que, confundido por alguns como uma "volta à boa forma", tornam A Visita e agora Fragmentado muito mais acessíveis a qualquer tipo de público.

É uma mudança de fim comercial, porém, que no fundo não altera a essência de seu cinema, que continua com as mesmas propensões pelo menos desde O Sexto Sentido. Se os aspectos estéticos e relacionados à forma estão sempre evoluindo nos filmes de Shyamalan, sua missão permanece idêntica: encontrar um respiro na rotina, descobrir-se como um ser de potencial e renovar a esperança em si mesmo. São temas que continuam fortes no seu cinema até os dias de hoje, oscilando talvez entre uma maior e menor presença imediata nas tramas de suas produções.

Mas se as temáticas permanecem inalteradas, como o diretor é capaz de se manter relevante sem se esgotar? No caso de Fragmentado, obra que é seu maior sucesso de bilheteria desde Fim dos Tempos, a resposta está na potencialização de sua forma e no intercâmbio de gêneros realizado por ele em um longa a princípio estabelecido como um terror sádico. No filme, três jovens adolescentes - encabeçadas por uma típica vítima de bullying chamada Casey Cooke (Anya Taylor-Joy) - são sequestradas e enclausuradas em um quarto por Dennis, uma das 23 personalidades que habitam o corpo de Kevin (James McAvoy). De início perdidas e desesperadas sobre o porquê de terem sido vítimas de tal ato, as três logo ficam sabendo que estão ali para servirem de sacrifício à Besta, uma nova e mítica persona de Kevin que está para se manifestar em seu interior.

Alternando-se entre a situação claustrofóbica do cativeiro das meninas com investigações da rotina de Kevin durante o evento e do passado de Casey, Shyamalan desenvolve aos poucos e com um tom menos esperançoso sua narrativa de fábula dentro dos limites da câmara que cerca seus dois protagonistas. O suspense é mais uma vez a linha condutora do diretor, que se aproveita aqui dos relances de profundidade da fotografia de Mike Gioulakis - que emerso no meio com Corrente do Mal dá toques labirínticos à produção, especialmente nas cenas de corredor - para potencializar estas possíveis instabilidades espaciais de um cenário fechado enquanto promove o mesmo equilíbrio entre humor e horror que atingiu com A Visita.

E ainda que mais para frente Fragmentado demonstre estar melhor antenado na temática com outro trabalho de Shyamalan (o qual não vale a pena revelar aqui para preservar os efeitos do longa), é justo com o excelente found footage dirigido pelo cineasta em 2015 que ele está mais próximo no fim, seja por questões formais - a melhor transição e equilíbrio entre os gêneros, o ótimo trabalho do elenco, o uso ressaltado como "consciente" da câmera - ou de formulação - a revelação da similaridade entre os traumas responsáveis por isolar Kevin e Casey passa de alguma forma pelo mesmo eixo de união das duas crianças em sua crise familiar. É um alinhamento não planejado pelo diretor que não exatamente tira força dos jogos de tensão da produção mas fica responsável por escancarar demais o processo narrativo do diretor, antecipando viradas e criando quebras não esperadas entre fábula e horror. E para alguém que esteve sempre disposto à metalinguagem como Shyamalan, estas rupturas podem ser prejudiciais.

Nota: 7/10

quarta-feira, 22 de março de 2017

Crítica: T2 Trainspotting

Continuação se perde na nostalgia, mas encontra no choque de gerações uma maneira de prosseguir.

Por Pedro Strazza.

Lançado em meio à onda de refilmagens e continuações de sucessos do passado que a indústria cinematográfica se encontra nos dias de hoje, T2 Trainspotting carrega um misto de sinais contraditórios que acabam por representar mais o estado da indústria que do mundo. Se o Trainspotting original trazia impresso em sua comédia de humor negro e seus protagonistas viciados em heroína todos os traços do espírito de rebeldia e desencanto sistemático da juventude do pós-punk de meados dos anos 90, a sequência mira um retorno analítico e mais auto-consciente a esta geração e seus tipos, mas involuntariamente termina por tratar dos ecos e dificuldades de relação que as atuais obras "nostálgicas" de Hollywood tem com o próprio passado.

Os indícios desta virada, porém, só irão se manifestar à partir da metade no longa, que de início parece  com sucesso evitar as cacofonias de produções análogas e se assume de fato como uma continuação dos eventos mostrados no primeiro filme. Mais de 20 anos depois do dia que traiu seu grupo e fugiu com o dinheiro da venda de um carregamento de drogas, Renton (Ewan McGregor) retorna à Escócia para ver como anda o pai depois da morte da mãe e também para acertar as contas com os amigos, mas encontra um cenário difícil para todos. Enquanto o violento Begbie (Robert Carlyle) encontra-se preso, Sick Boy (Jonny Lee Miller) e Spud (Ewen Bremner) ainda estão ligados a vícios e vidas à deriva - o último manteve-se na heroína e na vida miserável todos estes anos, ao passo que o primeiro trocou a droga para a cocaína enquanto administra um pub na região portuária e segue tocando esquemas de chantagem.

Se a princípio a trama em nada parece se relacionar com a do original é porque o diretor Danny Boyle e o roteirista John Hodge estão menos interessados na permanência dos vícios de seus personagens - uma temática que permanece presente pelo discurso de Renton sobre substituir "um pelo outro", mas é apenas coadjuvante na narrativa - e mais no efeito que o peso das últimas duas décadas tiveram neles, jovens de uma geração que prezava pelo imediato e inconsequente que não conseguiu escapar da passagem do tempo. É uma medida capaz de tornar a proposta deste novo Trainspotting ousada em termos de análise, ainda mais porque ela aproveita as mudanças do cenário econômico no Reino Unido depois da crise e do Brexit. Se estes homens quando jovens podiam desfrutar da estabilidade econômica como um eterno meio de escape à rotina de vício, na realidade atual eles são confrontados constantemente pela responsabilidade e as dificuldades financeiras de quem vive uma época instável e sem salvaguardas.

É uma questão que na direção de Boyle logo se transforma numa divertida comédia de choques geracionais, alimentada pela noção de que seus protagonistas, antes tão insurgentes, se tornaram numa versão distorcida de velhos conservadores. Da hilária cena do canto contra os católicos no pub unionista aos olhares perdidos de Renton e Sick Boy em uma balada, passando por todos os conflitos familiares de Begbie - que tenta sem sucesso ensinar o "ofício" do crime ao filho, esse "ingrato" que quer fazer a vida pela profissão da hotelaria -, o filme sabe tirar do verdadeiro abismo entre as mentalidades do passado e do presente um humor ácido e observador de costumes, invertendo relações para revelar as raízes do clima dominante de comportamentos extremos de hoje.

T2 poderia muito bem se manter auto-suficiente (e ser melhor que grande parte dos outros filmes sobre a crise europeia, como o vencedor da Palma de Ouro Eu, Daniel Blake) caso se centrasse nisso, mas a partir do momento que passa a abordar o passado suas ambições ficam todas desarranjadas. É um problema que parte da própria indecisão da produção sobre qual postura adotar para com o legado: se de início ela se afirma como uma sequência disposta a tomar os próprios caminhos, prosseguindo a história dos personagens e seus novos trambiques, depois de um tempo ele volta a adotar uma postura autorreferente, se bastando a reposicionar peças e emitir cacoetes nostálgicos do original. A derrapada só fica mais evidente na direção fora de tom de Boyle, cujo exageros estilísticos de planos inclinados, projeções na tela e rabiscos luminosos não são capazes de conciliar as tramas e se perdem na tentativa de emular um tom rebelde e explosivo que em nenhum momento se adequa à realidade vivida pelos personagens.

Se esta mudança de eixo gera uma quebra de narrativa das mais significativas - a partir do momento em que se percebe que tudo ali serve à nostalgia a situação de riscos proposta pela produção perde todo o sentido - ela também termina por servir como um reflexo meio maldito e necessário da síndrome do retorno ao passado ao qual muitas produções, artistas e estúdios se sujeitam nos dias de hoje. É uma condição que o próprio Traisnpotting parece perceber e usar a seu favor, conforme ele aos poucos parece encontrar em Spud, personagem que no longa passa por um arco de recuperação, mas também de percepção da necessidade de se recontar as histórias como forma de seguir em frente, o maior protagonismo.

Nota: 5/10

sábado, 18 de março de 2017

Crítica: A Bela e a Fera

Remake em live-action da animação falta em encantamento aquilo que tem de renovação.

Por Pedro Strazza.

Desde que descobriu com Alice no País das Maravilhas a verdadeira mina de ouro escondida nas adaptações live-action de suas próprias animações, a Disney vem testando e aprimorando o formato destas produções em busca da fórmula que ao mesmo tempo satisfaça as gerações de fãs dos trabalhos originais e evite cair em moralismos e lições de valor ultrapassados. É um desafio que só se complica quando se aborda as tradicionais histórias de princesa, contos de fadas clássicos cujas estruturas são mais do que inadequadas às discussões de gênero dos tempos de hoje.

Assim, se no ano passado o estúdio parece ter conseguido encontrar com Mogli e principalmente Meu Amigo, o Dragão um bom ângulo para guiar seus outros remakes em live-action, nas fábulas de personagens como Cinderela e Bela Adormecida ele ainda se encontra em uma cruzada para resolver este equilíbrio delicado entre a nostalgia do passado e a desconstrução do presente. É quase como um enigma da princesa, cujo ponto de resolução está na conciliação de partes a princípio nada relacionáveis entre si.

Neste sentido, a nova versão de A Bela e a Fera chega tanto para aliviar quanto para aprofundar os desafios do estúdio. Alivia porque o remake não deixa de ser uma aposta garantida: além de ser um dos maiores sucessos comerciais da Disney nos anos 90, a animação de 1991 dirigida por Gary Trousdale e Kirk Wise apostava na época na desconstrução de valores tradicionais dos contos de fadas sem destituí-los de seu encanto. São fatores que por si só facilitam o trabalho de adaptação para o live-action, que ao contrário de filmes como Malévola e Cinderela já possui uma linha de raciocínio bem clara a ser seguida.

Não é por acaso, então, que o longa dirigido por Bill Condon seja bastante fiel à história contada há mais de 20 anos, tanto em termos narrativos como também visuais. O roteiro escrito por Stephen Chbosky e Evan Spiliotopoulos refaz os caminhos do amor entre Belle (Emma Watson) e o príncipe amaldiçoado como Fera (Dan Stevens) com leves alterações e adições pontuais para elucidar alguns pontos da trama e facilitar a transição do relacionamento ao romance (as visitas ao passado do casal e de seus pais, por exemplo, ajudam a explicar certos comportamentos do casal, principalmente do segundo), ao passo que Condon aproveita da desmistificação do ideal masculino intrínseco à história para torná-lo em uma questão de igualdade social. Isto acontece tanto pelo lado da hierarquia econômica (o reencontro final dos criados com a vila carrega um pouco desta lição de união) quanto pelo de gêneros, raças e credos, algo ressaltado pelo arco da sexualidade de LeFou (Josh Gad) mas também nos casais interraciais formados pela cantora (Audra McDonald) e o pianista (Stanley Tucci) do castelo e Lumière (Ewan McGregor) e Plumette (Gugu Mbatha-Raw) - a revelação desta última depois de aparecer o tempo inteiro como um espanador branco, inclusive, pode vir a ser uma agradável grande surpresa para quem desconhece a atriz ou sua escalação para o papel.

São boas intenções que o filme carrega porém apenas nas pontas, pois ainda que se proponha como exuberante e luxuoso este A Bela e a Fera prova-se uma tentativa tímida demais de se trabalhar o conto infantil. Culpa talvez da necessidade exagerada do estúdio em revisitar suas produções antigas pela nostalgia, mas também pela inabilidade do diretor: Se Jon Favreau em Mogli demonstrava ter um controle bastante presente sobre o visual da floresta e seus personagens, Condon aqui não consegue encontrar na narrativa um tom capaz de equilibrar a emulação dos cenários e vestimentas da animação com o design mais próximo do gótico que seu longa carrega. Aliado ao visual meio oscilante dos personagens criados em CGI - se a Fera tem uma figura muito pobre  e feia digitalmente, os objetos variam entre as soluções criativas (o Cogsworth de Ian McKellen, o armário) e mal resolvidas (o aspecto humano de Lumière, a face do piano) - e os números musicais pouco deslumbrantes - nem mesmo "Be our guest" escapa aos planos fechados -, esta dificuldade criativa de produção ajuda a promover na obra um sentimento de esquizofrenia que no fim barra seu avanço narrativo.

É no casal protagonista, entretanto, onde o filme de fato parece se bloquear em si mesmo. Enquanto Dan Stevens acaba preso dentro de uma Fera má concebida e que não consegue emitir nenhuma emoção, Watson fica refém do próprio papel ao não conseguir resolver a virada na sua relação com a criatura dentro dos ideais de empoderamento ao qual se propõe. Se Belle a princípio surge como uma mulher forte, independente e superior aos rituais ultrapassados do vilarejo onde mora, construindo aparatos e lutando contra preconceitos dos outros habitantes, esta noção se esvai por completo depois de feita a transição no romance com o príncipe no castelo, com Watson falhando em reobter este perfil após sua transformação para "dama" e o longa se restringindo no terceiro ato a realizar apenas a comparação dos perfis de cavalheirismo realizados pela Fera e Gaston (Luke Evans).

São problemas que terminam por tornar este novo A Bela e a Fera em uma espécie de oposto ao Cinderela de Kenneth Branagh, já que este optava por privilegiar no espetáculo aquilo que lhe faltava em atualização depois de também se valer da nostalgia como eixo da trama. É uma comparação que rende ramificações inusitadas dentro da proposta de reformulação ao qual ambas as produções estão no fundo submetidas: na ausência de uma opção capaz de conciliar as duas partes, mais vale a reafirmação com o encantamento de sua história ou a atualização necessária afim de evitar o anacronismo inevitável da moral nas adaptações modernas dos contos de fadas? Para Condon, esta dúvida é o que no fim põe em cheque todos os valores de sua abordagem.

Nota: 5/10

quinta-feira, 9 de março de 2017

Crítica: Silêncio

Adaptação do livro de Shusaku Endo encontra novas dúvidas ao teste de fé de Martin Scorsese.

Por Pedro Strazza.

Embora seja celebrado por seus filmes de máfia e a pretensa "realidade" sangrenta que estes carregam, Martin Scorsese é um diretor que a bem da verdade traz como grande objeto de investigação o sistema e a convicção de seus integrantes de estarem em controle do funcionamento das coisas mesmo estando longe do comando. Seja nas obras em que trabalha o processo em toda a sua grandiosidade ou aqueles onde tudo se realiza sob o pretexto da farsa, o cineasta americano sempre enxergou em personagens como o Johnny Boy de Caminhos Perigosos ou figuras reais como Jordan Belfort uma espécie de grande busca do indivíduo para reafirmar suas forças dentro da ordem social que o cerca, com a lei contra ou a seu favor. É uma jornada capaz de englobar tramas de vingança (Gangues de Nova York), ascensões e declínios do poder (o arco tradicional de seus trabalhos voltados para o crime) e até mesmo de sátira (o pesadelo kafkiano de Depois de Horas).

Todas as suas histórias, porém, não deixam de no fim se estabelecerem no conceito de fé, um tema caro ao diretor desde a infância (na sua tentativa frustrada de entrar para a Igreja e se tornar padre) e que ora ou outra ocupa posição central em seus filmes. O curioso destes projetos é que é justamente por eles onde Scorsese aborda de fato o questionamento da crença, elevando a dúvida de seus protagonistas sobre o quão passíveis de confiança são as organizações e rituais - bem como o senso de ordem envolto a isso - no qual se inserem. Este incômodo de certa forma une em torno de um mesmo eixo as narrativas de A Última Tentação de Cristo, Kundun, Vivendo no Limite e agora Silêncio, adaptação do livro homônimo de Shusaku Endo que o cineasta vem desenvolvendo desde os anos 90 e trata também de uma crise de fé.

Escrito por Scorsese e Jay Cocks, o longa segue os percalços de Sebastião Rodrigues (Andrew Garfield) e Francisco Garupe (Adam Driver), missionários portugueses para encontrar no Japão feudal o seu professor e mestre, o padre Cristóvão Ferreira (Liam Neeson). Famoso propagador da fé jesuíta no país mesmo depois do cristianismo ter sido proibido pelo governo, Ferreira segundo os rumores renunciou a sua fé perante o temível inquisidor Inoue (Issei Ogata), uma informação que sozinha ameaça a reputação da Igreja em seus esforços de disseminação. Buscando saber a verdade e reforçar os laços clandestinos da religião no local, a organização envia os dois sacerdotes, que logo percebem que há algo a mais em jogo.

Se em termos estruturais o filme é bastante fiel ao livro - as únicas maiores "mudanças" vem dos esclarecimentos visuais sobre o fim da história, bem como o posicionamento real do fiel Kichijiro (Yosuke Kubozuka) -, na narrativa Scorsese encontra um bom espaço para trabalhar a relação de Rodrigues com seu arco de provação pelo viés da ilusão que tanto o agrada em produções do tipo. Uma ilusão que vem não no sentido de satirizar os movimentos do missionário, mas de criar instabilidades no suposto martírio que ele e seus fiéis japoneses encaram em favor do Deus cristão.

Este questionamento é muito similar ao dos outros três filmes do diretor centrados no tema da fé citados acima, mas é com a cinebiografia do Dalai Lama que Silêncio no fim tem maiores semelhanças estruturais. Assim como em Kundun, Scorsese trabalha aqui a dúvida do protagonista com sua própria posição religiosa como um elemento central da jornada: se Rodrigues chega no Japão crente de que está lá para auxiliar os fiéis japoneses clandestinos a qualquer custo, ele aos poucos começa a entender que quem está mesmo sob um teste de fé é ele.

É algo anunciado de forma desapercebida na abertura do filme - as névoas cobrem o cenário no qual Ferreira abdica de sua posição sacerdotal de forma a sugerir tanto um misticismo quanto a dúvida sobre o ato -, mas este viés duvidoso da posição de Rodrigues é a partir da metade o que configura a real potência do longa e suas intenções. Do momento que o intérprete vivido por Tadanobu Asano anuncia ao padre que ele "abraça ilusões para as chamá-las de fé" em diante, a história vira o jogo: não é mais o martírio dos fiéis - que pagam com a vida em mortes lentas e extremamente dolorosas - o objeto a ser questionado pelo espectador, mas sim a ilusão do missionário em relação à nobreza de suas intenções.

Esta virada, vital às pretensões da obra, é também talvez o motivo que levou Scorsese a ter tamanho interesse pela história por tanto tempo. Pois se há um elemento comum a todos os longas ficcionais do cineasta é esta convicção no sistema como uma estrela-guia que nunca se move, com a falta de fé (pela crise pessoal ou, como é mais comum, a traição) servindo de clímax fundamental para a verificação de sua eficácia.

No caso de Silêncio este momento final de atestamento cai na armadilha da reafirmação da crença que já é típica ao cinema do diretor (o último plano principalmente), mas ao mesmo tempo ele evita manter em curso a legitimação dos atos anteriores que seus outros filmes de fé realizavam sem pensar duas vezes - A Última Tentação, por exemplo, não poderia destituir o valor do sacrifício de Jesus apenas porque este desejou a posição humana em detrimento da condição divina. Despido desta convicção, o filme concebe um ponto de crise não resolvido que o faz se sobressair em relação aos outros trabalhos de Scorsese sobre o tema, alimentando uma desilusão que lhe é benéfica agora e muito promissora para o futuro.

Nota: 8/10

quarta-feira, 1 de março de 2017

Crítica: Logan

Última participação de Hugh Jackman como Wolverine encontra no faroeste réquiem para o personagem. 

Por Pedro Strazza.

Além da tão prometida maior violência pelo qual o longa desde o começo de sua divulgação usou para se vender - e que entrega, em meio a decepamentos de membros, jorros de sangue, palavrões e até um peitinho - Logan evidencia a influência do sucesso de Deadpool em sua concepção por uma tomada de consciência do gênero ao qual pertence e que de súbito é adquirida neste terceiro capítulo da série solo de Wolverine. Esta lucidez da própria posição ocupada pela produção, porém, está longe do tom cartunesco e de sátira em que a adaptação do herói interpretado por Ryan Reynolds se situava, assumindo uma postura mais séria e de puro revisionismo para servir ao propósito inicial de encerrar a passagem de Hugh Jackman pelo papel do protagonista.

Neste sentido, o longa dirigido por James Mangold de fato funciona como um último capítulo, um filme de pontos finais para o personagem e o mundo em que vive. O ano é 2029, e com ele surge a informação de que os mutantes estão em extinção e que Logan é junto do Professor Xavier (Patrick Stewart, também em sua última aparição na franquia) e do antigo vilão e agora colega Caliban (Stephen Merchant) um dos últimos de sua espécie. O antigo Wolverine aparece debilitado e no auge de sua síndrome auto-destrutiva, mas isso é interrompido depois de uma mulher misteriosa (Elizabeth Rodriguez) o encarregar de cuidar de uma garota chamada Laura (Dafne Keen), uma rara jovem mutante perseguida por um grupo de mercenários que logo demonstra possuir várias semelhanças com o herói.

Mangold e os coautores do roteiro Scott Frank e Michael Green não demoram para deixar claro o flerte da obra com o faroeste, gênero tradicional dos Estados Unidos e mais propenso nas últimas décadas a revisitar suas histórias e arquétipos clássicos sob um olhar crítico. Ainda que se comporte como uma típica trama de travessia - a jornada do grupo liderado pelo Carcaju para levar Laura a um local seguro enquanto é perseguido pelo grupo do mercenário Pierce (Boyd Holbrook) emula em alguns momentos os últimos dois Mad Max - Logan é muito mais ancorado em filmes como Os Brutos Também Amam (que ganha uma referência direta) e principalmente Os Imperdoáveis, trabalhos interessados em analisar as relações de violência e concepções de mito aos quais o gênero se estabelece, para reforçar o caráter testamental da produção em cima da figura do personagem incorporado por Jackman, que encontra-se aqui determinado em legitimar a elegia de um papel que carrega há quase 17 anos.

Essa proposição, tal qual a violência presente em toda a narrativa, logo se torna em uma ambição que acaba por fazer muito bem ao arco do Wolverine e ao longa no geral. Se os confrontos sangrentos permitem a Mangold enfim tornar palpável o trauma de isolamento pela brutalidade ao qual o protagonista se submetia em caráter muito atenuado nos antecessores (incluindo aí todos os X-Men), a adequação da série ao revisionismo e ao gênero potencializam as relações entre os personagens que sempre foram o ponto mais forte de seu cinema, seja na construção familiar entre Logan, Xavier e Laura ou no jogo de duplos posteriormente revelado como desafio final do herói para superar seu lado animalesco e enfim encontrar a paz interior. São estas relações inclusive que seguram a obra em seus momentos mais fracos, seja no excesso à exposição (o "documentário" da enfermeira, a repetição da comparação com a garota) ou nas cenas na fazenda da família do personagem de Eriq La Salle que pesam a mão para manter a referência ao faroeste de George Stevens em voga.

A decisão por uma consciência narrativa de encarar Wolverine como mito a ser preservado, por outro lado, também acarreta em uma questão de legado ao qual o filme parece reticente de explorar. Se a produção não hesita na hora de invocar referências para corroborar a noção do mutante como ideal (a obra-prima de Clint Eastwood é o norte mais claro nestes momentos), ela não faz o mesmo quando precisa extravasar esta imagem a outros personagens e fazer sentir o efeito que o herói possui com os outros - o maior exemplo é o relacionamento com Laura, a óbvia herdeira de sua posição, feita antes para motivá-lo a cumprir seu papel uma última vez que evidenciar sua influência sobre ela. Logan é acima de tudo dedicado ao arco de seu protagonista e somente isso, algo que pode se provar uma decepção quando chega o final e a hora de realizar a passagem do bastão.

Este viés do longa, porém, acaba diluído dentro da proposta sobre o protagonista, que carrega no réquiem de um personagem duradouro no imaginário coletivo uma força emocional muito grande - são dezessete anos de história, é bom lembrar. E é por saberem muito bem da potência deste fim - e usarem esta consciência a seu favor - que Mangold e Jackman conseguem fazer de Logan um filme de despedidas tocante, que tira de cada momento do ator com o personagem um sentimento de fim inevitável que talvez só o faroeste pudesse oferecer.

Nota: 7/10

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Oscar 2017: Indicados e vencedores

Sob clima de auto-homenagem, edição deste ano confirma novos rumos da premiação.

Por Pedro Strazza.

Há exatos quarenta e nove anos, Warren Beatty e Faye Dunaway eram protagonistas de Bonnie e Clyde - Uma Rajada de Balas, um dos cinco indicados ao prêmio máximo de um Oscar notável pelas mudanças, que via simultaneamente o progressivo fim da Velha Hollywood em contraste com o nascimento da Nova em meio ao ápice do movimento negro comandado por figuras como Malcolm X e Martin Luther King Jr. - este último cujo assassinato fez com que a cerimônia de premiação fosse adiada em alguns dias. Vencido por No Calor da Noite, o Oscar de 1968 foi um ponto de virada importante para a mentalidade dos votantes da Academia, que se em anos anteriores vinha consagrando grandes produções - como épicos históricos e musicais hollywoodianos - nas edições seguintes mudou por completo sua mentalidade, passando a eleger como filme do ano obras como Operação França, Perdidos na Noite e Rocky - O Lutador.

Nada mais justo então que quase cinquenta anos depois Beatty e Dunaway, símbolos de uma geração que "salvou" Hollywood de uma de suas maiores crises, também fossem protagonistas de uma das maiores confusões da História do prêmio. Escolhidos para realizar o ato final (justo por causa do aniversário de Bonnie e Clyde), a dupla anunciou na noite de ontem (26) o filme errado como vencedor do Oscar de Melhor Filme no final da cerimônia realizada no Dolby Theater. Os dois não tiveram culpa no processo - a organização forneceu erroneamente a eles um envelope reserva da categoria de Melhor Atriz - mas o verdadeiro papelão que aconteceu ao redor deles talvez tenha sido um dos atos mais simbólicos de uma nova mudança de mentalidade na Academia de Artes e Ciências Cinematográficas e seus votantes, até porque os longas envolvidos na troca representam dois tipos de produção que vem sendo centrais nas últimas edições da premiação.

Antes disso, porém, é preciso repassar a cerimônia. Com a audiência em queda livre já há alguns anos, o Oscar este ano apostou em Jimmy Kimmel para reformular a cerimônia e torná-la mais atrativa a todos os públicos, adequando as quase quatro horas de apresentação ao formato de um episódio do talk show comandado pelo apresentador, o Jimmy Kimmel Live. Com esquetes e piadas internas do programa incorporados aos números musicais e discursos de agradecimento - teve desde o famoso quadro Mean Tweets à eterna rivalidade de Jimmy com o ator Matt Damon - a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas viu seu principal evento acentuar os altos e baixos, já que ao mesmo tempo que tirava proveito da desenvoltura de seu host como mestre de cerimônias (o monólogo de abertura em especial foi um grande acerto) ele também sofria com esquetes forçados e mal encaixados entre as categorias - a brincadeira dos turistas aparecendo na cerimônia, por exemplo, pareceu como mais uma tentativa desesperada do Oscar de relembrar o sucesso viral do ano comandado por Elle DeGeneres, pelo menos em termos comerciais e midiáticos a apresentadora de maior sucesso das últimas edições.

Tudo isso foi envolto em um clima de solenidade bastante marcante para com a História da premiação, alto até mesmo para os padrões altamente narcísicos  da Academia. Depois de se render à sátira com a própria imagem no ano passado, o Oscar em 2017 foi do começo ao fim dedicado a relembrar os grandes momentos do prêmio, desde os clipes com os principais ganhadores das categorias de atuação (que precederam o anúncio de cada um dos quatro vencedores da área) às declarações de oscarizados sobre os filmes que marcaram suas vidas.

Enquanto este tom reverencialista apontava para uma permanência das tradições que circulam sobre a cerimônia desde sempre, a entrega dos prêmios em si trouxe várias surpresas, fruto talvez da mudança brusca do perfil dos votantes depois da medida tomada pela organização no ano passado de aumentar a diversidade de seus membros. Ainda que La La Land - Cantando Estações tenha saído da noite no fim com o maior número de prêmios - foram seis, incluindo o de Atriz para Emma Stone e o de Direção para Damien Chazelle - as primeiras categorias anunciadas já indicavam grandes reviravoltas, desde a inesperada vitória de Esquadrão Suicida em Melhor Maquiagem e Penteados (a primeira de um filme de super-herói no Oscar desde O Cavaleiro das Trevas em 2009) às duas estatuetas conferidas a Até o Último Homem, não apenas por ser um filme do recém-redimido pela Academia Mel Gibson como também por ter premiado em Mixagem de Som Kevin O'Connell, recordista de derrotas na categoria com 20 nomeações.

O fim do suplício de O'Connell foi o maior indicativo do quão propensa a Academia estava para justiças históricas na noite de domingo, seja presente ou passada. As vitórias de Mahershala Ali e Viola Davis em Ator e Atriz Coadjuvante puseram fim à onda do "Oscars So White" que assombrava a Academia já há dois anos; impedidos de comparecer à cerimônia por terem sua entrada no país barrada pelo presidente Trump, os realizadores de White Helmets e o celebrado cineasta Asghar Farhadi foram agraciados respectivamente com as estatuetas de Documentário em Curta-Metragem e Filme Estrangeiro, talvez por terem sido vítimas dos desmandos do governo; com o anúncio de Animais Fantásticos e Onde Habitam como grande vencedor da categoria de Figurino, a franquia Harry Potter enfim levou um Oscar para casa; e por causa de Piper - Descobrindo o Mundo a Pixar enfim conseguiu vencer a categoria de Animação em Curta-Metragem depois de mais de quinze anos na seca.

Isso nos leva, claro, ao principal prêmio da noite. Depois de ter confirmado seu favoritismo em Ator Coadjuvante e Roteiro Adaptado, Moonlight - Sob a Luz do Luar saiu com o Oscar de Melhor Filme, se tornando o primeiro filme LGBT da História do prêmio a receber a maior honraria da noite. A vitória do longa dirigido por Barry Jenkins soa como uma espécie de redenção a produções centradas na temática, principalmente Brokeback Mountain que, em 2006, teve suas grandes chances de levar a principal estatueta frustradas pelo fraco Crash - No Limite, tido por muitos como a escolha mais absurda feita pela Academia nos últimos anos.

Antes de saber que tinha vencido, porém, Moonlight acabou vendo o prêmio ser erroneamente anunciado por Beatty e Dunaway para La La Land, cuja grande quantidade de estatuetas arrebanhadas durante a noite - apesar de em número muito menor que esperado - reforçou a ideia de que sua vitória fosse natural.

É neste ponto que fica evidente o quão importante a confusão do anúncio foi para a compreensão do que pode ser a mais nova mudança de eixo da premiação dos melhores da indústria cinematográfica estadunidense. Nesta última década, o Oscar de Melhor Filme pertenceu em pelo menos três ocasiões (no caso O Artista, Argo e Birdman) a produções que de alguma forma faziam referência à Hollywood de forma a reverenciá-la, o que reforçava por sua vez a tendência dos votantes de consagrar o musical de Chazelle na categoria este ano. A vitória de Moonlight, entretanto, vai contra esses "princípios" até então dados como certos para os rumos atuais da premiação, que caía cada vez mais na celebração autoindulgente de seu passado e se tornava por consequência ultrapassada.

O filme de Jenkins a bem da verdade possui maior afinidade com outro vencedor recente da categoria, o campeão do ano passado Spotlight - que também levou poucas estatuetas na edição de 2016. Como no longa sobre Jornalismo de Tom McCarthy, impera em Moonlight a predominância de temáticas que muitos elogiam como "importantes" para o mundo de hoje, algo que acaba por prevalecer na mentalidade coletiva sobre as duas obras e as impulsionou para fazer História no Oscar. São trabalhos que atingem o status de grande obra por uma atribuição que sua qualidade em nada influencia: só de tocar em temas importantes e espinhosos às alas mais conservadoras (para Spotlight o abuso sexual em crianças, em Moonlight a homossexualidade e o negro) sua condição se eleva.

Assim posto, começa a se formar na temporada de premiações um novo cenário. Pelo menos nos próximos cinco anos, pode se esperar do Oscar e das instituições ligadas a ele a tendência de suas principais categorias escolherem produções que carreguem este signo de importância, uma suposta vitalidade à discussão pública e os assuntos vitais que regem seu funcionamento. A dúvida é o quão disposta a Academia e seus votantes estão de se empenhar nisso, porque pelo menos nestas últimas duas edições o que se viu foi um verdadeiro festival de hipocrisia (culpa talvez do clima solene que tanto permeia a premiação): quando se celebrou a importância do Jornalismo, o Oscar teve o perfil mais branco de indicados dos últimos quinze anos; enquanto se glorificava um filme considerado negro e de temática LGBT, dava-se prêmios a um filme comandado por um (ótimo) cineasta até então renegado na indústria por sua atribuição de anti-semita e racista e a honraria de Melhor Ator a Casey Affleck, que em tempos recentes viu ressurgir na imprensa acusações de assédio. Mesmos os discursos dos vencedores desta 89° cerimônia de premiação falharam em possuir uma maior carga política, com os campeões das categorias principais se restringindo a agradecimentos pessoais e emocionais.

Isso sem contar o fato de que há certas justiças históricas pendentes que mais uma vez foram frustradas pela Academia, incluindo aí o fato de nenhum negro na História do prêmio ter levado a estatueta de Melhor Diretor.

No fundo, a confusão iniciada por Beatty e Dunaway foi positiva por dois grandes motivos. O primeiro é que o caráter inusitado da zona deu à premiação um bem vindo respiro de autenticidade em meio à armação falsamente disfarçada de surpresa por Kimmel e seu talk-show montado em cima da cerimônia - que no próximo ano deve testar novos formatos depois de ver sua audiência cair de novo. A segunda vem da própria transição escancarada na passagem de estatuetas entre os indicados, que não apenas revelaram um senso de camaradagem - tirando a atitude nada agradável do produtor de La La Land Fred Berger, que mesmo consciente da derrota resolveu fazer um discurso de agradecimento, os responsáveis pelos dois filmes se mostraram muito conscientes da situação delicada em que se colocavam - mas também representaram ao vivo a passagem de bastão que a Academia aos poucos se encaminha enquanto os reais vencedores chegavam ao palco. Graças a um erro, o momento ali com certeza uniu para sempre os rumos de ambos os filmes.

Confira abaixo a lista completa da 89° edição do Oscar. Os vencedores estão em negrito.

Melhor Filme


Melhor Direção


  • Mel Gibson (Até o Último Homem)
  • Dennis Villeneuve (A Chegada)
  • Damien Chazelle (La La Land - Cantando Estações)
  • Kenneth Lonergan (Manchester à Beira-Mar)
  • Barry Jenkins (Moonlight - Sob a Luz do Luar)

Melhor Roteiro Adaptado


  • A Chegada
  • Estrelas Além do Tempo
  • Lion - Uma Jornada Para Casa
  • Moonlight - Sob a Luz do Luar
  • Um Limite Entre Nós

Melhor Roteiro Original


  • Mulheres do Século 20
  • La La Land - Cantando Estações
  • O Lagosta
  • Manchester à Beira-Mar
  • A Qualquer Custo

Melhor Ator


  • Andrew Garfield (Até o Último Homem)
  • Viggo Mortensen (Capitão Fantástico)
  • Ryan Gosling (La La Land - Cantando Estações)
  • Casey Affleck (Manchester à Beira-Mar)
  • Denzel Washington (Um Limite Entre Nós)

Melhor Atriz


  • Isabelle Huppert (Elle)
  • Meryl Streep (Florence - Quem é Essa Mulher?)
  • Natalie Portman (Jackie)
  • Emma Stone (La La Land - Cantando Estações)
  • Ruth Negga (Loving)

Melhor Ator Coadjuvante


  • Michael Shannon (Animais Noturnos)
  • Dev Patel (Lion - Uma Jornada Para Casa)
  • Lucas Hedges (Manchester à Beira-Mar)
  • Mahershala Ali (Moonlight - Sob a Luz do Luar)
  • Jeff Bridges (A Qualquer Custo)

Melhor Atriz Coadjuvante


  • Octavia Spencer (Estrelas Além do Tempo)
  • Michelle Williams (Manchester à Beira-Mar)
  • Naomie Harris (Moonlight - Sob a Luz do Luar)
  • Nicole Kidman (Lion - Uma Jornada Para Casa)
  • Viola Davis (Um Limite Entre Nós)

Melhor Animação


  • Kubo e as Cordas Mágicas
  • Minha Vida de Abobrinha
  • Moana - Um Mar de Aventuras
  • The Red Turtle
  • Zootopia - Essa Cidade é o Bicho

Melhor Animação em Curta-Metragem


  • Blind Vaysha
  • Borrowed Time
  • Pear Cider and Cigarettes
  • Pearl
  • Piper - Descobrindo o Mundo

Melhor Documentário


  • A 13° Emenda
  • Eu Não Sou Seu Negro
  • Fogo no Mar
  • Life, Animated
  • O.J.: Made in America

Melhor Documentário em Curta-Metragem


  • 4.1 Miles
  • Extremis
  • Joe's Violin
  • Watani: My Homeland
  • The White Helmets

Melhor Filme Estrangeiro


  • O Apartamento
  • Land of Mine
  • Tanna
  • Toni Erdmann
  • Um Homem Chamado Ove

Melhor Fotografia


  • A Chegada
  • La La Land - Cantando Estações
  • Lion - Uma Jornada Para Casa
  • Moonlight - Sob a Luz do Luar
  • Silêncio

Melhor Montagem


  • Até o Último Homem
  • A Chegada
  • La La Land - Cantando Estações
  • Moonlight - Sob a Luz do Luar
  • A Qualquer Custo

Melhor Trilha Sonora


  • Jackie
  • La La Land - Cantando Estações
  • Lion - Uma Jornada Para Casa
  • Moonlight - Sob a Luz do Luar
  • Passageiros

Melhor Canção


  • "The Empty Chair" (Jim: The James Foley Story)
  • "Audition (The Fools Who Dream)" (La La Land - Cantando Estações)
  • "City of Stars" (La La Land - Cantando Estações)
  • "How Far I'll Go" (Moana - Um Mar de Aventuras)
  • "Can't Stop The Feeling" (Trolls)

Melhor Design de Produção


  • Animais Fantásticos e Onde Habitam
  • Ave, César!
  • A Chegada
  • La La Land - Cantando Estações
  • Passageiros

Melhor Figurino


  • Aliados
  • Animais Fantásticos e Onde Habitam
  • Florence - Quem é Essa Mulher?
  • Jackie
  • La La Land - Cantando Estações

Melhor Maquiagem e Penteados


  • Esquadrão Suicida
  • Star Trek - Sem Fronteiras
  • Um Homem Chamado Ove

Melhores Efeitos Visuais


  • Doutor Estranho
  • Horizonte Profundo - Desastre no Golfo
  • Kubo e as Cordas Mágicas
  • Mogli - O Menino Lobo
  • Rogue One - Uma História Star Wars

Melhor Edição de Som


  • Até o Último Homem
  • A Chegada
  • Horizonte Profundo - Desastre no Golfo
  • La La Land - Cantando Estações
  • Sully - O Herói do Rio Hudson

Melhor Mixagem de Som


  • 13 Horas - Os Soldados Secretos de Benghazi
  • Até o Último Homem
  • A Chegada
  • La La Land - Cantando Estações
  • Rogue One - Uma História Star Wars

Melhor Curta-Metragem


  • Ennemis Intérieurs
  • La Femme et le TGV
  • Silent Nights
  • Sing
  • Timecode

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Top 9: Oscar de Melhor Filme 2017

Por Pedro Strazza.

Pois é, o ano passou, filmes vieram e foram, o mundo mudou (bastante), a temporada de premiações passou voando e agora vai chegando a hora de mais uma entrega do Oscar. Mantendo a tradição dos últimos três anos, reorganizo os nove indicados ao prêmio de Melhor Filme em um ranking pessoal, indo do pior nomeado àquele que, se tivesse a oportunidade, colocaria no topo da minha cartela de votação. Também fiz uma lista com todos os indicados que assisti (dos 62, vi 52 antes da cerimônia), ao qual você pode conferir aqui.

Sobre a edição deste ano, admito que desta vez nenhum dos indicados ao prêmio de Melhor Filme foi para mim aquilo que muitos classificam como "O filme do ano", mas isso não quer dizer que a qualidade das nove produções lembradas pelos votantes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas foi baixo. Tanto que, dos nove longa-metragens selecionados, pelo menos três eu considerei como ótimos e sete foram classificados aqui como bons trabalhos, restando a apenas dois indicados o que alguns consideram ser notas baixas.

O bom é que nenhum dos filmes foi um O Regresso, então está tudo bem (risos).

Enfim, vamos à lista. Antes, é bom lembrar que TODOS os nove indicados ao principal prêmio da noite ganharam críticas no site, às quais você pode conferir clicando em seus nomes abaixo.

Os indicados são:

9) Um Limite Entre Nós

Dentre os nove, o que eu achei o mais fraco de todos foi definitivamente a adaptação cinematográfica da peça de August Wilson pelas mãos de Denzel Washington. Adaptação que na verdade está mais para transposição: de tanto respeitar o ótimo material em mãos, Washington acabou por realizar um filme que tenta a todo custo se comportar como uma peça de teatro, algo que tem lá sua força mas também traz consequências irremediáveis à produção. Pelo menos o ótimo elenco mantém as coisas funcionando.

8) A Chegada

Gosto de Denis Villeneuve (seu Os Suspeitos inclusive marcou presença em um dos Melhores do Ano), mas seus últimos trabalhos tem me frustrado. Se Sicario acabou se revelando um filme desconjuntado em meio aos bons sets de ação que promove, este A Chegada almeja unir o lado alegórico da ficção-científica com o bom drama intimista de sua protagonista para no fim revelar o primeiro como um mecanismo submetido ao segundo. O longa vira então um exercício frustrado, cuja única grande força acaba por residir no trabalho de Amy Adams - que sequer chegou a ser a lembrada pela Academia, mesmo o filme ganhando inacreditáveis oito nomeações.

7) Estrelas Além do Tempo

Talvez a grande força de Estrelas Além do Tempo resida no fim na potência natural de sua história e no perfil de suas três protagonistas, mas é fato que Theodore Melfi foi competente o suficiente para executar o filme e sua mensagem. Separando a História dos Estados Unidos em duas, o longa consegue evidenciar muito bem a forma como o processo histórico do país funciona, fazendo o diagnóstico do racismo no país que já é típico de produções do gênero. Somado ao bom trabalho de seu elenco, isso me parece bastar.

6) Lion - Uma Jornada Para Casa

É o melodrama bem executado, ainda que a canção da Sia ali no fim quase estrague. Garth Davis é capaz de alinhar as duas partes de seu filme sem que algo se perca na transição, além de saber usar o ótimo elenco em mãos. Lion talvez me frustre um pouco por não perseguir o belo filme de espaços que tem em mãos, mas só de saber realizar o arroz e feijão sem pesar o sal ele já sai no saldo positivo comigo.

5) Moonlight - Sob a Luz do Luar

Bastante querido por muitos, Moonlight foi pra mim um filme que soube muito bem evidenciar o quão frágil a masculinidade (e sua formação) pode ser. Com elenco afiado, Barry Jenkins soube traduzir a jornada de Chiron em uma experiência intimista intrigante e nova, apesar de ali e aqui se render a figuras e elementos genéricos que prejudicam seu conto. De qualquer forma, é uma produção que se destaca.

4) Até o Último Homem

Apesar do tom inicial de Forrest Gump versão ridícula, o retorno de Mel Gibson a Hollywood se provou um filme dos mais intensos e curiosos da temporada. Reformulando o ideal patriótico dos Estados Unidos sob um ideal de fé cristã, o cineasta faz de Até o Último Homem uma obra de provações sem pesar o sofrimento (alô, A Paixão de Cristo...), conseguindo arrancar ótimas atuações de atores como Sam Worthington e Luke Bracey e fazendo da figura franzina de Andrew Garfield um herói de força descomunal. Alguns erros básicos, mas no geral ele é extremamente feliz na execução de sua proposta.

3) Manchester à Beira-Mar

Ficou com a medalha de bronze o drama de dor e sofrimento de Kenneth Lonergan, que com toques de humor negro e alta melancolia trata de uma história de arrependimento das mais pesadas. Guiando o ótimo elenco com perspicácia e com momentos que são verdadeiros socos no estômago (a cena do desmonte da personagem de Michelle Williams quase me leva junto nas lágrimas), Manchester à Beira-Mar é uma experiência das mais tristes e recompensadoras nestes termos, sabendo se valer muito bem da figura de "anjo da morte" que Casey Affleck parece incorporar com tanta tranquilidade.

2) La La Land - Cantando Estações

Item mais polêmico e grande favorito ao prêmio principal da noite, o musical de Damien Chazelle me foi uma experiência das mais fascinantes por conseguir reiniciar a crença no inalcançável sonho americano. Em tempos difíceis e de individualismo extremo, La La Land soube como poucos atualizar e manter acesa a esperança no sucesso e estrelato, algo que fica a cargo principalmente do magnífico trabalho de Emma Stone. Há quem chame o filme de ingênuo e uma "grande ameaça à credibilidade do Oscar" quando este precisa reafirmar sua posição no cenário, mas o longa está longe de ser um O Artista ou O Discurso do Rei para destruir a premiação em qualquer uma destas frentes.

Mas o melhor filme da categoria de Melhor Filme em 2017 é...

1) A Qualquer Custo

A América do ódio, do preconceito, da ganância e da vingança, tudo isso em plena atualidade. A missão de A Qualquer Custo parece ser muito fácil, mas com certeza não o é. Transpor o Velho Oeste para a realidade de hoje e reafirmar a validade de suas leis enquanto se presta a executar o gênero é um fruto valiosíssimo, gerado a partir de um roteiro afiado de Taylor Sheridan e a direção eficiente de David Mackenzie. Some isso a um trabalho de elenco formidável (Jeff Bridges, Ben Foster, Chris Pine e Gil Birmingham estão altamente sintonizados entre si) e temos um filme que é ao mesmo tempo um retrato exato do momento atual do país e também um faroeste para não botar defeito, por si só um verdadeiro espetáculo.

ESPECIAL: Oscar 2017

Crítica: Um Limite Entre Nós

Reverencialismo e tom solene são os principais nomes na transposição de peça para o cinema.

Por Pedro Strazza.

Adaptação da peça homônima escrita pelo vencedor do Pulitzer August Wilson, Um Limite Entre Nós nasce de um clima de solenidades que se fará perceptível por toda a sua duração. O longa, afinal, tem raízes do reencenamento da obra ocorrido em 2010 na Broadway - que trazia Viola Davis e Denzel Washington nos papéis principais, ambos depois agraciados com o Tony por seus trabalhos - e traz nos créditos o único nome de Wilson como autor do roteiro, embora este tenha falecido há mais de dez anos.

Apesar de externos, estes dois fatos parecem servir de chave ao filme para compreender suas decisões narrativas iniciais, até porque a produção dirigida por Washington se assume do princípio como o que muitos chamam de "peça filmada". Transpondo os cenários da peça para a realidade dos subúrbios mais pobres de Pittsburgh, a obra traduz para a tela todo o material teatral em caráter reverencial, tratando como intocável os diálogos e dinâmicas de cena escritos por Wilson nos anos 80. A história mantém-se idêntica: nos anos 50, um coletor de lixo chamado Troy Maxson (Washington) procura viver com sua esposa Rose (Davis) e o filho Cory (Jovan Adepo) a partir de seus termos, mas sua atitude agressiva com a cria e os próprios erros cometidos na vida logo começam a fazer ruir a harmonia em casa.

Dedicado em manter o legado do autor intacto, Washington parte aqui de uma proposta de reprodução pura e simples, apoiando-se no talento de seus atores e na maneira como trabalham seus papéis com a mesma voracidade e pompa do teatro como forma principal de refazer na tela o mesmo sucesso da peça. É um filme então que se dedica ao elenco e seu ofício, com a câmera estando encarregada somente de fazer closes e planos longos para que os personagens tenham todo o espaço e tempo de tela para se desenvolverem.

É uma lógica de boas intenções, mas que peca por não diferenciar o espaço teatral do cinematográfico. Se no campo da performance tudo parece estar no lugar certo, a narrativa desenvolvida pelo diretor constantemente vai contra suas próprias forças, minando momentos fortes da trama com cortes e enfoques que se distanciam do núcleo dramático em ação. Até o espaço de cena, a casa onde grande parte da trama se situa, é subaproveitada, com elementos como o aparato metafórico da cerca construída por Troy a mando de Rose para manter a família unida ou a bola e o taco de baseball pendurados na árvore sendo reduzidos a meras figurações ora ou outra tocadas.

Embora os fins sejam muito diferentes, os erros cometidos por Washington na direção de Um Limite Entre Nós lembram muito os que ele fez em seu trabalho anterior, O Grande Desafio. Seja na adaptação do trabalho de Wilson ou na cinebiografia sobre a primeira equipe de debate de uma universidade negra a disputar competições em âmbito nacional, o cineasta aposta tanto na força das palavras proferidas por seus atores que subaproveita o potencial da trama em prol disso. São duas obras que partem com esta lógica dada como certa para seu sucesso, mas que depois recaem em um vazio emocional inerte por abandonarem o drama e suas ramificações.

No caso de Um Limite Entre Nós, esta problemática só se aprofunda conforme o tom solene e engrandecedor do material original fica evidente. Ao mesmo tempo, porém, o filme acaba equilibrando a balança graças ao próprio esforço do elenco, que apesar de sabotado está muito dedicado para passar despercebido (principalmente Davis, cuja personagem oferece momentos emblemáticos suficientes), e a força do material, de novo uma tábua de salvação e condenação a Washington e que aqui e ali oferece relances de todo o seu potencial não executado. A opção por uma transposição literal ao invés de uma adaptação pode fazer do longa fraco e inoperante na maioria do tempo, mas ele também não é capaz de apaziguar ou ocultar seu conteúdo por completo.

Nota: 4/10