O Cinema em 2016

Os melhores, os piores e os destaques do ano!

Sully - O Herói do Rio Hudson

O peso da responsabilidade

Rogue One - Uma História Star Wars

Spin off da saga não encontra voz própria

O Artist's Alley da CCXP 2016

Confira algumas das HQs que estiveram presentes no evento!

A Chegada

Denis Villeneuve aposta no emocional em ficção-científica intimista

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Crítica: La La Land - Cantando Estações

O sonho americano em tempos de individualidade extrema.

Por Pedro Strazza.

Único número musical a envolver de fato um grande número de pessoas na coreografia, a canção "Another day of Sun" abre La La Land - Cantando Estações com um prenúncio daquilo que será tratado no filme. Em mais um típico congestionamento nas estradas dos arredores de Los Angeles, motoristas e passageiros saem de seus carros para cantar e dançar os sacrifícios que fizeram em suas vidas para tentar conquistar os sonhos que tanto almejam. Com a Cidade dos Anjos ao fundo servindo como espécie de Meca a suas respectivas buscas por fama e sucesso, a câmera passeia por dançarinos e dançarinas enquanto estes pulam em carros, descobrem bandas no interior de caminhões e saúdam o cenário ao qual se inserem para no fim voltarem a entrarem em seus carros e baterem as portas, retornando ao status original de buzinas e xingamentos por causa da lentidão.

É uma abertura bastante simples - o visual lembra muito os clipes criativos e cada vez mais batidos da banda OK Go - e que evidencia a questão do sonho americano, uma utopia que se no passado foi fundamental a Hollywood e o cinema estadunidense hoje está em declínio absoluto, ainda que tenda a permanecer no imaginário popular. Mas será que ainda é possível perseguir o estrelato, a riqueza e a vida perfeita prometida nos filmes antigos no mundo contemporâneo? 

No fundo, esta é a grande questão a ser respondida pelo musical dirigido e escrito por Damien Chazelle, que começa retomando valores desse grandioso passado afim de levantar tais perguntas. Seus dois protagonistas, afinal, vivem dessa nostalgia frustrada pelo tempo: Enquanto a jovem Mia (Emma Stone) busca a carreira de atriz e se decepciona com cada "não" tomado, o pianista Sebastian (Ryan Gosling) persegue o sonho de ter o próprio clube de jazz em um cenário onde o gênero musical encontra-se em extinção, vendo seus grandiosos templos serem substituído por bares de samba e tapas. Após se esbarrarem repetidas vezes no curso de poucos dias, os dois se apaixonam e passam a apoiar um ao outro em suas metas aparentemente impossíveis.

Se La La Land a princípio se faz como um musical feito das memórias do que veio antes, uma grande homenagem a um gênero que no passado dominou atenções, ele aos poucos dissolve esta suspeita no rumo do relacionamento dos protagonistas e nas dificuldades que eles passam para alcançar seus objetivos. Se no primeiro ato o longa é dominado pela invasão de elementos tradicionais deste tipo de cinema na atualidade - algo muito evidente nos números musicais, mas também presente nas referências visuais a pontos turísticos de Los Angeles - o filme gradativamente incorpora essa mistura do nostálgico com o contemporâneo a um tom mais visual, dando lugar (pelo menos até o balé final) a (muito melhor resolvidas) danças silenciosas e canções quase em formato de serenata que guiam o romance de Mia e Sebastian com poucas palavras.

Isso porque Chazelle está menos interessado no musical como fim e mais como meio para o desenvolvimento de seus personagens e suas respectivas jornadas. O diretor repete de seu longa anterior (Whiplash) aqui o alienamento obsessivo dos protagonistas e o uso da música como uma ferramenta de trama, imprimindo ao casal uma sede individualizante e uma nostalgia anacrônica que são condizentes ao mundo que os permeiam afim de torná-los em avatares universais de uma busca por um sonho ultrapassado e em pleno desfalecimento. O "Eles adoram tudo e valorizam nada" que Sebastian diz para Mia em tom de desabafo durante um passeio pelas instalações vazias de um dos grandes estúdios, seguido posteriormente pela cena onde ela vê o cinema que serviu de local para o primeiro encontro com ele ser fechado, serve de lembrete a esta transformação natural em curso, uma mudança nas formas e caminhos aos quais eles terão de se submeter para alcançar seus objetivos.

Que o individualismo, para bem ou para mal, sempre esteve ligado ao sonho americano está claro desde sempre, mas é no atestamento do crescimento de sua necessidade que torna o musical tão atraente. Mesmo que o relacionamento de Mia com Sebastian seja marcado por poucos conflitos, La La Land torna evidente a fragilidade da relação dos dois devido a suas próprias ambições, aos poucos desfazendo as possibilidades de sucesso de seu namoro por movimentos simples enquanto ambos parecem encontrar apenas becos sem saída em suas jornadas. No processo, Emma Stone é quem melhor incorpora as dores e as perdas sentidas a cada passo dado, envolvendo o espectador a cada derrota e conquista por todos os métodos possíveis, seja na dança, no choro ou no olhar.

Assim, quando o filme chega a sua parte final e o público reencontra os dois personagens cinco anos depois com seus objetivos alcançados, a fama e o sucesso atingidos e o sonho americano de certa forma realizado (uma licença poética que para muitos deve soar um tanto quanto ofensiva) graças a suas ambições individuais - Mia só consegue o primeiro papel graças a seu monólogo, enquanto dá-se a entender que Sebastian abandonou a banda do amigo Keith (John Legend) para fundar o seu bar - a grande pergunta que permanece sem ser respondida é se o sacrifício do relacionamento por esse sonho valeu a pena. O belíssimo balé final orquestrado por Chazelle, seguido pelo olhar cúmplice entre os dois, vem então não apenas para responder esta questão como também para reafirmar a força da busca pelo sonho americano em um mundo - e também uma Los Angeles - onde tal esperança parecia ter se desvanecido por completo.

Nota: 9/10

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Segunda Opinião: A Criada

Park Chan-wook traz novo olhar sobre relacionamentos lésbicos no cinema.

Por Isabela Faggiani.

Um desafio do cinema lésbico mundial é de fazer um filme que não explore a saída do armário, a auto-descoberta, a puberdade e a morte. Esses são os maiores clichês de qualquer filme que explore o relacionamento entre duas mulheres. E Park Chan-wook conseguiu se livrar de todos eles. Só por isso, A Criada já deveria ser um filme essencial no cinema lésbico.

A história se passa na Coreia do Sul dos anos 30 e o filme dura quase três horas. São dois fatores que podem assustar o público geral para longe das telas, mas Chan-wook conseguiu fazer um longa que te prende do primeiro ao último segundo. O filme é dividido em três atos e cada um deles está recheado de novos mistérios e descobertas que deixam o espectador querendo saber cada vez mais das vidas da rica japonesa Hideko e sua criada coreana, Sookee.

Nenhum filme é perfeito, é claro, e, enquanto A Criada foge dos maiores clichês lésbicos, cai em um outro: a fetichização do corpo feminino e do sexo lésbico. Mas, diferentemente de dezenas de outros filmes, a erotização em A Criada tem um propósito e é essencial para a história.

O trailer mostra apenas uma ínfima parte da aventura que é assistir a esse filme e a trama te surpreende a cada reviravolta (e são muitas. Eu parei de contar depois da terceira). Durante os 145 minutos de filme, é possível sentir toda sorte de emoções: da ternura à raiva ao medo.

Para começar, Sookee (Kim Tae-ri) vai à casa de Hideko  (Kim Min-hee) para ser sua criada, mas na verdade ela esconde o segredo de que é uma ladra disfarçada que está armando um plano para roubar toda a fortuna da nipônica junto do igualmente mentiroso Conde Fujiwara (Jung-woo Ha). Os planos da garota ficam abalados quando ela se apaixona por sua patroa, mas o espectador nunca sabe se ela decide abandoná-los e confessar seu amor ou ignorar seus sentimentos.

O conde, inclusive, é retratado como sendo um homem mentiroso, arrogante e vaidoso. Em nenhum momento do filme o vemos fazendo algo de positivo. Todas as suas ações são calculadas para o próprio bem. As dele e as do tio de Hideko, Kouzuki (Jo Jin Woong). É de acalentar o coração de qualquer mulher lésbica ver todos os homens do filme serem retratados como pessoas ruins e não como seres bacanas que roubam a cena e que mereciam que as garotas fossem heterossexuais (ou bissexuais) para ficarem com eles, como visto por exemplo no filme de 2010 Minhas Mães e Meu Pai.

Os homens definitivamente não têm vez nessa história, cujas duas personagens principais dividem toda a glória da atenção do público. (Inclusive, Academia, dois papéis principais podem, sim, ser de duas mulheres. Não cometam mais o erro que cometeram com Carol, de colocar uma das atrizes como coadjuvante. Não há como ter parte coadjuvante em uma história centrada no casal).

Esses quatro personagens fecham a trinca principal do filme e todos eles são muito bem construídos, complexos e misteriosos até o último minuto do filme. É quase impossível adivinhar o que acontecerá durante a história. E o que prende no filme é isso: saber qual será a sucessão dos fatos e não descobrir o final por si só. Há toda uma teia de mentiras, segredos e seduções que se fazem necessárias serem descobertas pelo espectador antes de chegar no final.

Não há, por exemplo, como ignorar a obsessão de Kouzuki por seus livros e não querer saber o conteúdo deles, ou os detalhes do plano sórdido de Fujiwara e Sookee. Negligenciar a aparente inocência de Hideko e seu desejo de se matar seria quase como matar o longa em si. Inclusive, uma das cenas mais memoráveis de todo o filme é quando a nipônica tenta se enforcar na mesma árvore em que sua tia se suicidou, mas falha quando Sookee aparece para salvá-la.

A Coreia de antes da guerra é o cenário perfeito para um filme misterioso, envolto em luxúria, paixão, ódio e artimanhas. E se deliciar com cada reviravolta e revelação é uma experiência única que traz à tona a pergunta: “por que esse filme não recebeu nenhuma indicação ao Oscar?”. O roteiro, a fotografia e as atuações estão páreo a páreo com alguns dos melhores do ano.

O longa respira arte e entrega mistério envolto em eroticidade. O romance entre duas mulheres na Ásia dos anos 30 é uma história que não deveria ter sido negligenciada pela Academia ou pelo grande circuito de cinema, que parece só ter olhos para os blockbusters estadunidenses.

Como uma mulher bissexual que procura assistir a todo e qualquer filme de temática lésbica que consigo, digo que A Criada é um dos filmes mais importantes, não apenas desse gênero, mas do ano de 2016. Uma revolução para o cinema lésbico e para o cinema mundial, que deveria abrir mais as portas para filmes como esse.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Crítica: Assassin's Creed

Adaptação do jogo busca dar peso dramático desproporcional a história guiada pela ação.

Por Pedro Strazza.

Enquanto série de jogos, a franquia Assassin's Creed provou ao longo do tempo que seu maior atrativo era antes de tudo a inserção histórica. Se nos primeiros capítulos a Ubisoft buscava se apoiar sobre uma história linear que justificasse a existência e o uso do Animus, o dispositivo que permite ao jogador voltar ao passado para reviver o conflito entre as seitas dos Assassinos e Templários em diversas épocas, a desenvolvedora aos poucos chegou à conclusão que o elemento central da marca era o uso da História em si, passando a apostar mais e mais na recriação hiper-detalhada de períodos particulares da humanidade e permitindo a seu jogador usufruir destes como verdadeiros playgrounds de matança e navegação.

De certa forma, a adaptação para os cinemas da série consegue ao mesmo tempo entender e não entender o seu funcionamento na hora de traduzi-la para as telas. Entende porque, pelo menos na ação, o filme comandado por Justin Kurzel percebe o potencial lúdico da marca e esboça um estilo que passa longe da burocracia, trabalhando os enfrentamentos passados na Espanha da Inquisição visando a fisicalidade do movimento como elemento central de seu funcionamento. Mas a produção também não entende a franquia porque, no resto, o seu excesso de dedicação em dar peso à trama torna a experiência cinematográfica um tanto quanto enfadonha a qualquer um.

É um peso manifestado de forma clara na narrativa desenvolvida por Kurzel, que depois de demonstrar com sua versão cinematográfica de Macbeth ter dificuldade visíveis para trabalhar o conteúdo das obras de Shakespeare força aqui relações familiares trágicas clássicas do autor inglês em uma história que visivelmente não é capaz de comportá-la. Alternando-se entre o clima de conspiração de organizações secretas - no caso a Abstergo, empresa de pesquisa de fachada para as operações dos Templários - e os conflitos de pais e filhos nutridos pelos dois protagonistas, o roteiro escrito por Michael Lesslie, Adam Cooper e Bill Collage busca uma história de trauma que se alimente das crises de fé de Callum Lynch (Michael Fassbender) e a doutora Sophia Rikkin (Marion Cotillard) com seus respectivos grupos, seja no caso do primeiro com o fato dele presenciar a morte da mãe (Essie Davis) pelas mãos de seu pai (Brendan Gleeson) quando criança ou da segunda com a aparente falta de confiança que seu pai (Jeremy Irons), diretor da Abstergo, tem por ela.

Estas relações até que dariam dramas interessantes de se acompanhar, mas acabam não funcionando por não possuírem o conteúdo necessário para evidenciar sua complexidade. Assassin's Creed gira em torno de situações presas ao momento: Callum surge na tela pela primeira vez preso em sua cela à espera da execução, entretanto o espectador nunca fica sabendo direito o porquê dele ter sido condenado (apenas se sabe que ele está lá por matar um cafetão); o conflito de Sophia com a figura paterna é apenas sugerido nos conflitos dos dois sobre o uso do Animus e outras questões burocráticas com a ordem; mesmo os assassinos presentes na Abstergo planejam uma revolta de inspiração imediata. Tudo no longa é feito nas aparências e no campo do subjetivo, mas Kurzel insiste em conferir uma alta dramaturgia a tudo - que, sem surpresa, logo se prova um grande aborrecimento.

A sorte do espectador é que se o diretor é péssimo nas maneiras como lida com o drama, na ação o cineasta australiano é capaz de levantar uma temática sobre realidade e projeção com bastante potencial. Ainda que reduzida a três momentos bastante pontuais da narrativa, as incursões ao passado com o ascendente de Callum, o espanhol Aguilar (também Fassbender), dispensam o diálogo e adotam as perseguições e confrontos físicos entre Assassinos e Templários como linha fundamental de cena, aos quais Kurzel filma combinando a irrealidade dos cenários digitais com a materialidade de seus atores e dublês (que realizam todas as cenas de parkour). As acelerações de cena e os combates fluídos trazem um charme inexplicável dentro de toda a estética poeirenta dessas sequências, que também não fazem lá muita questão de explorar o relacionamento de Aguilar com a colega assassina Maria (Ariane Labed).

A mistura realmente dá certo também porque Assassin's Creed nesses poucos momentos de sanidade sabe deslocar isso a Lynch, que como personagem preso a visitas fantasmagóricas de Aguilar depois de ser submetido ao Animus e avatar de um antepassado funciona melhor que arquétipo shakespeariano trágico. Uma pena então que o filme não perceba esta tendência que ele mesmo elabora, preferindo investir tempo em relações desgastadas e com erros de concepção básicos ao invés de efetivamente se deixar guiar por essa questão de corpo, alma e ação para situar um drama de fé no fim tão básico.

Nota: 4/10

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Crítica: Moana - Um Mar de Aventuras

Animação sabe aproveitar e se posicionar dentro da fórmula Disney.

Por Pedro Strazza.

Desde que as animações da Disney passaram a ser supervisionadas pelo chefe criativo da Pixar John Lasseter, as produções animadas do estúdio passam por um processo de recombinação de elementos dos mais intrigantes. Ainda que filmes como A Princesa e o Sapo, Operação Big Hero, Frozen e Zootopia repliquem a fórmula consagrada em clássicos da produtora, eles também reciclam essa metodologia pela incorporação de temas e cenários contemporâneos.

Até aí, a fase atual em nada se diferencia do chamado "renascimento Disney", que nos anos 90 também retrabalhou arcos clássicos das histórias infantis sob um novo e revigorado prisma. O que a torna única dentro do histórico do estúdio é a tendência de suas produções de uma forma ou de outra terem consciência das histórias tradicionais e, a partir disso, visarem uma efetiva desconstrução de valores do legado que as cercam.

Moana - Um Mar de Aventuras, mais nova animação da Disney, parte justamente deste ato de auto-consciência, algo já inserido desde o início com a introdução da mitológica figura heroica de Maui (Dwayne Johnson). Semideus da cultura polinésia, ele é responsável no passado pelo roubo de uma pequena pedra que serve de coração à deusa Te Fiti, um ato que a fez adormecer para sempre e permitiu que forças malignas dominassem os mares do Pacífico. Cerca de um milênio depois, a jovem Moana (Auli'i Cravalho), futura rainha de uma das tribos da região e em crise com as restrições geográficas impostas por seu pai (ela não pode ir além dos recifes), precisa encontrar o objeto depois de perceber que seus conterrâneos já não acham peixe ou frutos para se alimentar. Sabendo que Maui foi o último a ter posse do item, ela então desbrava o oceano pela primeira vez e vai atrás de seu paradeiro.

Não demora muito para que os dois se encontrem, e depois de Maui e Moana trocarem insultos e resolverem se unir para atingir suas próprias metas fica um pouco mais claro na narrativa que o objetivo dos diretores Ron Clements e John Musker - dupla conhecida pelas animações do estúdio que melhor mexem com o conceito do mito (A Pequena Sereia, Aladdin, Hércules) - é de contrapor as figuras heroicas de dois tempos. Pelo arco trágico clássico bastante amenizado do semideus polinésio (o abandono da mãe, quase uma constante nas mitologias antigas, é algo subentendido pela trama) e o da procura por um lugar no mundo da garota, típico dos heróis modernos, o longa mantém a dinâmica da dupla acesa durante a jornada por esses choques quase geracionais, pendendo sem muita surpresa para o lado da protagonista e a desconstrução do tipo durão que a acompanha.

Chega a ser natural, então, que a aventura fique um pouco de lado no filme, em ordem de abrir espaço ao estranho relacionamento amigável que se forma entre os dois. O roteiro de Jared Bush nunca deixa de manter a jornada em pauta, mas é evidente o teor capitular das situações, ligadas com elegância pelas canções de Opetaia Foa'i, Mark Mancina e Lin-Manuel Miranda. Até mesmo o divertido encontro com o gigantesco Tamatoa (Jemaine Clement), momento mais psicodélico da trama, soa um pouco fora do contexto da história, que preza por uma fantasia menos explosiva e pontual - como o espírito da avó de Moana (Rachel House), os gigantescos deuses do final e até mesmo os cocos dotados de vida que são os Kakamora.

Mas no fundo a grande força do filme está nas maneiras como ele lida com a fórmula do estúdio, o que não deixa de ser uma repetição do que foi visto em seus antecessores com melhor desenvoltura. Temas e situações batidas como a morte do ente querido, a valorização da tradição e a mensagem de desbravar o mundo são usados mais uma vez por Clements e Musker sem hesitação, sendo capazes de reintroduzir esses conceitos ao público de forma revigorada e com sensação de inédito. Moana tem uma percepção muito clara daquilo que busca aspirar dentro do histórico da Disney e sabe se portar como tal, dispondo da referência ao passado apenas para potencializar o próprio discurso.

Nota: 7/10

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Preview 2017

Alguns dos lançamentos mais esperados do ano que se anuncia.

Por Pedro Strazza.

Pelo menos do ponto de vista do calendário de estreias dos cinemas brasileiros, 2017 se inicia com grandes chances de ser superior à 2016. E isso não ocorre apenas pelo fato do ano passado ter sido relativamente fraco, com a temporada de blockbusters hollywoodianos decepcionando e muita coisa boa ter ficado de fora das telonas daqui: os próximos 365 dias prometem trazer um combo fascinante de obras, com tanto os longas de 2016 que chegarão atrasados ao país quanto a produção original do ano soando igualmente atrativas.

Dos atrasados do ano passado, temos bastante filmes da temporada do Oscar deste ano que foram bastante elogiados lá fora, incluindo aí a trinca La La Land - Cantando Estações, Manchester à Beira-Mar e Moonlight, que aparentemente chegam forte na disputa pelo prêmio de Melhor Filme. Mas há também outros da corrida pela estatueta que merecem a visita, como novos trabalhos de diretores de renome - Mel Gibson (Até o Último Homem), Pablo Larraín (Jackie), Robert Zemeckis (Aliados) - e obras que chamaram bastante à atenção da crítica e do público no exterior, como A Qualquer Custo, Estrelas Além do Tempo e Lion - Uma Jornada para Casa.

Fora do circuito de premiações, há sobras de 2016 que parecem valer a pena de serem conferidas na telona, seja blockbusters como o divisivo Assassin's Creed ou produções menores como Quase 18. Do que já conferi e que estreia no circuito nas próximas semanas, deixo recomendado o A Criada de Park Chan-wook, o Paterson de Jim Jarmusch e a nova animação da Disney, Moana - Um Mar de Aventuras.

E isso são só os primeiros dois meses de 2017. Depois disso há uma verdadeira enxurrada de filmes com potencial, desde o circuito independente até as caríssimas produções de Hollywood, ao qual agora busco pinçar uma pequena parcela para compor o Preview que tradicionalmente inaugura as atividades do site no ano. Organizei as dezessete obras aqui listadas segundo o calendário, desprendendo-se da obrigatoriedade (e, de certa forma, banalidade) de ranquear produções ainda não vistas.

Em comum, todos os filmes citados a seguir me despertaram o interesse e são aguardados por mim por diversos motivos, em conjunto gerando o otimismo maior sobre o ano que demonstrei acima. Vamos a eles:

  • Silêncio

Única sobra de 2016 presente na lista, o novo filme de Martin Scorsese é a adaptação do livro O Silêncio do japonês Shusaku Endo, que trata da jornada de dois padres missionários para encontrar um outro famoso padre no interior do Japão hostil à presença católica. Até hoje uma obra divisiva, o livro traz questionamentos difíceis e ao mesmo tempo fascinantes sobre a maneira de enxergar a fé cristã, um terreno fértil para o diretor de O Rei da Comédia e O Lobo de Wall Street.

Data de estreia: 2 de fevereiro

  • LEGO Batman - O Filme 

Da extensa leva de filmes de super-herói que mais uma vez se anuncia como destaque maior na temporada de blockbusters, o derivado de Uma Aventura LEGO é talvez o que possui maior potencial. Além de estar livre de amarras de cronologia e das vontades dos fãs, LEGO Batman tem apresentado na campanha de marketing um tom de paródia e despretensão dos mais agradáveis com o personagem, que já na "adaptação" da marca de blocos de montar era um dos elementos mais divertidos.

Data de estreia: 9 de fevereiro

  • A Cura

Cineasta que mudou os caminhos do horror nos Estados Unidos no começo do século com O Chamado (que curiosamente ganha uma nova continuação em 2017, Chamados), Gore Verbinski volta ao gênero este ano com A Cura. Estrelado por Dane DeHaan, o filme já exprimiu nos trailers uma vontade bem clara de mais uma vez combinar terror psicológico com de hospital, por meio de uma trama que tem no mistério sobre uma instituição de recuperação seu maior chamariz.

Data de estreia: 16 de fevereiro

  • John Wick - Um Novo Dia para Matar 

Uma das grandes e boas surpresas de 2014, John Wick ganha uma continuação este ano que promete ser ensandecida e despirocada. Comandado por Chad Stahelski (um dos diretores do primeiro), Um Novo Dia Para Matar parece ter aproveitado o aumento considerável no orçamento para expandir o número de cores e a complexidade dos sets de ação que exibirá, trazendo de volta o matador de aluguel vivido por Keanu Reeves para matar ainda mais membros da máfia. 

Data de estreia: 16 de fevereiro

  • Logan 

Depois de tantos anos afirmando que tal filme seria seu último como Wolverine, agora Hugh Jackman parece mesmo estar decidido a encerrar seu trabalho com o Carcaju nos cinemas. Terceiro filme solo do personagem, Logan traz o herói para o futuro, onde, envelhecido, terá de cuidar de uma nova mutante em um mundo onde a raça está em extinção. É claro que os últimos dois capítulos da série não foram lá grande coisa, mas dessa vez os elementos podem enfim encaixar e entregar a obra que Wolverine tanto merece.

Data de estreia: 2 de março

  • A Bela e a Fera

Esperada por muitos, a versão em live-action da famosa animação da Disney tem em mãos - além da enorme responsabilidade de fazer jus ao original - o grande desafio de tornar verossímil ao público que objetos inanimados falem e se movam, algo que os dois trailers até aqui pouco mostraram. A produção comandada por Bill Condon, porém, também aposta no grande elenco (Emma Watson, Ian McKellen, Emma Thompson, Ewan McGregor, etc) e no visual "festa temática adolescente emo fã de Evanescence" para encantar. Se tudo isso der certo, as possibilidades para o estúdio no campo dos contos infantis serão infinitas.

Data de estreia: 16 de março

  • Fragmentado

Depois de voltar a brilhar com A Visita em 2015, M. Night Shyamalan surge em 2017 com outro terror de proposta chamativa, com James McAvoy interpretando um sujeito com mais de 20 personalidades que rapta e prende três adolescentes em sua casa.

Data de estreia: 23 de março

  • Z - A Cidade Perdida

Quem também está com trabalho novo em 2017 é James Gray, que em 2014 entregou o maravilhoso Era uma Vez em Nova York. Este ano, o diretor adapta para as telas o romance Z - A Cidade Perdida, de David Grann, que reconta os percalços de um explorador britânico que nos anos 20 desapareceu procurando uma cidade no interior da Amazônia.

Data de estreia: 20 de abril

  • Guardiões da Galáxia Volume 2, Homem-Aranha - De Volta ao Lar e Thor - Ragnarok

A Marvel Studios está disposta a se entregar à comédia pura e simples em 2017. Suas três produções do ano, afinal, parecem carregar o humor como principal elemento de suas aventuras super-heroicas, seja a space opera tresloucada da tão antecipada pelo público sequência de Guardiões da Galáxia, a comédia colegial adolescente do novo Homem-Aranha ou mesmo o fim do mundo do novo épico do Thor - que pelo visto de sério terá nada, já que conta com o diretor Taika Watiti no comando. Considerando que o ponto mais forte das outras produções do estúdio até o momento foi a piada, esta dedicação maior ao humor pode render bons frutos.

Datas de estreia: 27 de abril (Guardiões), 6 de julho (Homem-Aranha) e 2 de novembro (Thor)

  • Alien - Covenant

Se Prometheus revelou-se ser uma bela de uma bobagem e o capítulo dirigido por Neill Blokamp foi (para melhor) aparentemente engavetado, a continuação do prelúdio da série Alien dirigida por Ridley Scott pode render alguma coisa em 2017. Alien - Covenant parece retomar o horror claustrofóbico do original, incorporando-o à lógica de exploração espacial do antecessor para conceber um terror menos complexo nos questionamentos e mais de gênero, como bem indica o final do primeiro trailer e toda a situação "xenomorfo slasher" da cena da transa no banheiro.

Data de estreia: 11 de maio

  • Mulher-Maravilha

Depois de um 2016 com um filme divisivo e outro bem ruim, as produções da DC na Warner tem em 2017 suas últimas esperanças de emplacar. Mas se Liga da Justiça soa problemático por essência com o esvaziamento do comando de Zack Snyder e com chefs demais na cozinha, Mulher-Maravilha nutre expectativas por ser justamente o tão aguardado debute da principal super-heroína da editora nos cinemas. É grande a responsabilidade da diretora Patty Jenkins e de Gal Gadot com o longa, que volta para o período da Primeira Guerra Mundial para recontar o primeiro encontro da amazona com a humanidade.

Data de estreia: 1 de junho

  • Annabelle 2

Talvez a franquia de horror mais divertida dos últimos anos, Invocação do Mal volta em 2017 com a sequência do derivado de Annabelle, que dirigida por David F. Sandberg (do fraco Quando as Luzes se Apagam) volta a colocar a boneca possuída para atormentar uma nova família.

Data de estreia: 17 de agosto

  • Baby Driver 

Desde 2013 sem lançar um filme novo, o cineasta Edgar Wright surge este ano com Baby Driver, projeto que com elenco respeitável (Ansel Egort, Jon Hamm, Jamie Foxx, Kevin Spacey, Lily James...) trata de um piloto de fugas que é encarregado pela máfia de trabalhar em um assalto destinado ao fracasso.

Data de estreia: 17 de agosto

  • Valerian e a Cidade dos Mil Planetas

Diretor de O Quinto Elemento, o francês Luc Besson volta à space opera com Valerian e a Cidade dos Mil Planetas, adaptação dos quadrinhos franceses de Pierre Christin e Jean-Claude Mézières estrelada por Dane DeHaan (ele de novo!) e Cara Delevingne. Besson promete mais uma vez visuais coloridos e exagerados para ilustrar o épico, que acompanha as aventuras de dois viajantes espaço-temporais pelo universo.

Data de estreia: 17 de agosto

  • Blade Runner 2049

Pode parecer inacreditável, mas mesmo não gostando de A Chegada e Sicario eu ainda gosto de Denis Villeneuve e tenho expectativas com seu novo filme. Se tudo der errado, a continuação de Blade Runner pode ser o filme hollywoodiano que finalmente mistura blockbuster e arthouse sem errar a mão em nenhum dos dois - e o trailer já provou que esta possibilidade está aberta.

Data de estreia: 5 de outubro

  • Assassinato no Expresso do Oriente

A nova adaptação do famoso livro de Agatha Christie é comandada por Kenneth Branagh, diretor que promete levar suas influências teatrais para dentro da trama de mistério e intrigas passadas no interior de um trem. Isso, pelo menos, é o que o verdadeiro time de estrelas escolhido para trabalhar no filme indica, com nomes como Daisy Ridley, Penélope Cruz, Johnny Depp, Josh Gad, Michelle Pfeiffer, Michael Peña e o próprio Branagh vivendo os passageiros do expresso do título.

Data de estreia: 23 de novembro

  • Star Wars VIII

O segundo episódio da nova trilogia da franquia será o primeiro a partir do exato ponto de encerramento do antecessor, o ótimo O Despertar da Força. Além disso, a presença de Rian Johnson na direção indica um filme de pretensões bastante diferentes ao do capítulo dirigido por J.J. Abrams, algo que pode gerar ramificações inesperadas à história de Rey, Finn e Poe.

Data de estreia: 14 de dezembro

sábado, 31 de dezembro de 2016

O Cinema em 2016: Melhores do Ano

Os melhores filmes de 2016, o ranking final do ano e algumas considerações.

Por Pedro Strazza.

Que 2016 foi um ano difícil não há dúvidas. Para onde quer que se olhe, os últimos 365 dias foram extremamente danosos, proporcionando perdas irreparáveis em todos os campos e áreas de atuação. De tragédias e mortes a Donald Trump presidente dos Estados Unidos, os momentos de horror se multiplicaram, ao passo que foram poucos os instantes de alívio. 

No cinema, as péssimas notícias não vieram somente dos filmes ruins. Perdemos pessoas talentosíssimas das mais diferentes formas nestes últimos doze meses, cada falecimento sendo uma porrada mais forte. Abbas Kiarostami,  Alan Rickman, Anton Yelchin, Carrie Fisher, David Bowie, Debbie Reynolds, Gene Wilder, Héctor Babenco, Michael Cimino, Zsa Zsa Gabor... foram muitos nomes, nomes demais para que qualquer um aguentasse.

Já na produção cinematográfica, 2016 revelou-se curioso e cheio de reviravoltas. Começando com uma temporada de premiações dominada por polêmicas quanto à falta de diversidade na indústria hollywoodiana e um total enigma sobre o grande vencedor do Oscar (que acabou indo para Spotlight - Segredos Revelados), o ano prosseguiu mantendo o inesperado como palavra-chave: o júri do Festival de Cannes só fez escolhas controversas para a Palma de Ouro, a safra de blockbusters hollywoodianos foi a mais má recebida em anos, Aquarius foi recebido com amor por onde quer que passasse mas viu o Ministério da Cultura escolher o desconhecido Pequeno Segredo para representar o Brasil no Oscar (que no fim morreu na praia), Batman vs Superman - A Origem da Justiça dividiu radicalmente o público e viu Deadpool superá-lo na bilheteria, o ovacionado em Sundance e até então favorito ao Oscar 2017 O Nascimento de uma Nação naufragou na corrida após seu diretor ter um caso de estupro revelado, Rogue One - Uma História Star Wars ressuscitou os mortos enquanto a Disney fazia o mesmo com a magia de suas histórias infantis.

De certa forma, o Melhores do Ano acaba por incorporar essa lei de 2016 à sua disposição, apresentando surpresas na ordenação das 156 produções aqui listadas. Embora o ano não tenha sido lá dos melhores no circuito de salas de cinema brasileiro - somente 28 obras alcançaram nota igual ou superior a 8/10 no ranking -, o top 25 possui algumas características únicas, como a presença marcante de longas asiáticos (são cinco, mais uma produção estrangeira situada no continente) e de filmes comandados por diretores com mais de 70 anos (de novo cinco mais um que está à beira de chegar a essa idade).

Do legado de 2015 pouca coisa mudou, mas há algumas boas notícias. Dos 25 melhores filmes deste ano, temos agora doze protagonizados por mulheres e vinte com personagens femininas relevantes à trama, batendo respectivamente os onze e catorze do ano passado. Na direção, nada de novo: Ainda que o número de diretoras no top 25 seja de dois agora, nos 50 primeiros lugares permanecem a mesma quantidade de quatro cineastas mulheres do ano passado (dessa vez Anna Muylaert, Deniz Gamze Ergüven, Jennifer Yuh Nelson e Mia Hansen-Løve).

Esclarecido todos estes pontos, vamos ao que interessa. Algumas observações pontuais:

- Mantendo o que foi estabelecido em 2015, a lista deste ano põe em destaque 25 produções de forma a abranger um número significativo de filmes que ao meu ver marcaram este 2016 que já se vai.

- Ao fim da contagem, disponibilizo o já tradicional ranking completo com mais doze top 10, um dedicado a cada mês do ano e seus lançamentos.

- Para entrar neste verdadeiro listão a regra é simples: o filme precisa ter estreado no circuito comercial de cinemas brasileiros nos últimos 365 dias e ter sido visto por minha pessoa. Além disso, o longa só entra se for inédito e produzido nos últimos cinco anos - o que por tabela exclui obras como Blow-Up: Depois Daquele Beijo, 8 1/2, 2001 - Uma Odisseia no Espaço e etc.

- Também no ranking de 2016 volto a incluir as revisões de nota de algumas das produções presentes na lista. Devido à urgência requerida para escrever as críticas, algumas obras geralmente não tem o tempo necessário de digestão (também conhecido como "período em que o filme permanece vivo na memória"), ganhando notas mais baixas ou mais altas. Essas revisões foram feitas por minha pessoa no decorrer do ano e estão demarcadas na lista com a nota original entre colchetes.

Enfim, vamos a eles. MAS ANTES uma pequena menção honrosa:

Hors-Concours: Visita ou Memórias e Confissões, de Manoel de Oliveira

Por causa das regras acima citadas achei melhor deixar este último filme do falecido cineasta português de fora do ranking, mas também não queria relegá-lo ao esquecimento. Trabalho feito em 1982 para ser lançado depois de sua morte, Visita ou Memórias e Confissões serve a Manoel de Oliveira tanto como uma grande reflexão sobre sua vida (o longa trata de suas memórias e da casa onde viveu, afinal) quanto sobre o cinema ao qual tanto se dedicou, resultando em um trabalho que explora com maestria a relação do espectador com a sétima arte. Uma obra transcendental e que merece a visita.

E agora sim aos Melhores do Ano 2016:

25) A Assassina

Que o wuxia - gênero fantástico chinês que mistura lutas de espada, artes marciais e tempos medievais - no cinema tem como uma de suas bases a movimentação de seus personagens é uma constatação óbvia, mas quando alguém resolve encarar esta como força motriz única de um filme do tipo o desafio é bastante árduo. Este é o mote de A Assassina, filme do diretor taiwanês Hou Hsiao-Hsien que pega um conto tradicional chinês e, em meio a uma trama palaciana das mais confusas (e desinteressantes ao cineasta), o transforma em uma verdadeira questão de equilíbrio entre expressão e interiorização. Pela curva de aprendizado da assassina do título, Hsiao-Hsien volta a tornar o espectador atento ao movimento dos personagens, tirando dramas mal resolvidos de situações de absoluto silêncio e imobilidade para ao menor dos gestos transformar a visão que temos sobre aqueles personagens e suas histórias. Uma obra extremamente difícil, mas tão recompensadora quanto.

24) O que Está por Vir

Novamente tratando da inevitabilidade da mudança, a cineasta francesa Mia Hansen-Løve volta a mergulhar o público numa grande reflexão sobre os mecanismos que regem a vida em O que Está por Vir, auxiliada agora por (mais) uma atuação soberba de Isabelle Huppert. A partir da história de uma professora de filosofia que vê sua rotina ser virada de cabeça para baixo, a diretora trabalha dramas do cotidiano sob uma ótica menos condenatória e pautada em nos esforços individuais para se manter firme em meio a fatos que insistem em nos derrubar. É uma proposta que beira ao simples, mas é por ela que Hansen-Løve aos poucos revela facetas fascinantes e difíceis de serem evidenciadas sobre a humanidade.

23) O Ignorante

O trabalho mais recente do também francês Paul Vecchiali é ideal para quem quer começar a ver os filmes do diretor, tratando de temas universais sob a ótica de seu cinema tão distinto. Centrada na encenação, este estilo encontra momentos soberbos na trama sobre a relação turbulenta de um senhor com seu filho, ainda mais porque Vecchiali incorpora questionamentos próprios dentro da estrutura do longa. Alternando-se muito bem entre drama e comédia, O Ignorante se faz como uma fábula de fácil acesso sobre a velhice e o arrependimento, uma obra que dentro de uma forma muito específica é tocante em muitos sentidos.

22) Belos Sonhos

O cineasta Marco Bellocchio voltou a tratar do mãe-e-filho italiano em 2016 com Belos Sonhos, a adaptação do romance autobiográfico do jornalista Massimo Gramellini. A análise, entretanto, está desta vez muito mais ligada a um viés interiorizado, de trauma pela separação inevitável e muitas vezes abrupta entre as duas partes, algo que o diretor logo transforma em um assombro simbólico para o protagonista tornado órfão de mãe tão cedo. Os mistérios que regem tal relação tão primordial continua intacto no cinema de Bellocchio, mas ao levantar tais questões ele desperta questionamentos individuais adormecidos em cada um de seus espectadores.

21) Cemitério do Esplendor

O tailandês Apichatpong Weerasethakul (o Joe) voltou a proporcionar mais uma fabulosa experiência cinematográfica introspectiva em 2016 com Cemitério do Esplendor. De mise-en-scène simples e ao mesmo tempo complexo em tudo que desperta, o filme traz imagens e momentos de impacto que se deslocam com fluidez ímpar e beleza subjetiva. Esvaziando cenas de movimento e prezando ao máximo pelo essencial daquilo que capta, Joe trabalha com emoções difíceis de serem descritas e tempos muito particulares, aos quais honra com uma metodologia bastante respeitosa da posição grandiosa que ocupam em seu espaço.

20) Vizinhos 2

Pelo menos do ponto de vista de atualização, Vizinhos 2 é sem dúvida alguma o ponto de virada no cinema do grupo de comediantes encabeçado por Seth Rogen e Evan Goldberg. Depois de encenar os conflitos geracionais tradicionais no primeiro capítulo, a sequência incorpora ao estilo desvairado da dupla e do diretor Nicholas Stoller questões relevante do mundo contemporâneo (feminismo, os millennials, a problematização do macho) de uma forma que eleve o duelo central da trama a um nível melhor conectado à realidade. Beneficiado por um elenco que sabe tornar seus personagens totens sociais em status de enfrentamento (Zac Efron e Chloë Grace Moretz estão ótimos) e com uma mensagem de conciliação das mais otimistas, o filme é aquilo que a comédia estadunidense precisa se espelhar para se manter funcional aos tempos difíceis que virão.

19) Cinco Graças

Filme francês dirigido, estrelado, escrito e passado na Turquia, Cinco Graças sabe muito bem como trabalhar a opressão feminina pelas tradições e ritos do país. Pela história de cinco irmãs órfãs que são submetidas a casamentos arranjados, a diretora Deniz Gamze Ergüven mantém um olhar atento sobre o enfrentamento natural entre as duas partes, guiando o espectador pela sensação de acuamento constante que as protagonistas vivem. Embora não busque o debate (a história parte de um campo maniqueísta), o sofrimento retratado na tela é suficiente para problematizar as questões apresentadas.

18) Rua Cloverfield, 10

A continuação tão esperada de Cloverfield revelou-se ser um filme de câmara dos mais satisfatórios. Ancorado por ótimas atuações de Mary Elizabeth Winstead (uma excelente atriz que decididamente precisa de melhor espaço na indústia) e John Goodman, o novato diretor Dan Trachtenberg sabe brincar muito bem a tensão crescente que se faz sobre a realidade exterior e interior vivida por seus personagens para consumá-los no fim sem nenhuma das partes soar dissonante. Tal qual o original, Rua Cloverfield, 10 demonstra um controle difícil de ser obtido sobre os espaços que ocupa.

17) Depois da Tempestade

O novo trabalho do japonês Hirokazu Koreeda é mais uma produção do país a carregar a tradição do país de análise sobre a unidade familiar, sob uma ótica que em alguns momentos remete à abordagem das obras do mestre Yasujirô Ozu. O que faz este Depois da Tempestade se destacar, porém, é a forma como o diretor encontra para desconstruir a família, que no mundo contemporâneo se encontra mudada por completo em relação àquela vista na Era de Ouro do cinema japonês e não possui mais espaço para existir. Koreeda não busca encontrar aqui uma forma de remendar as partes desassociadas da unidade, mas de equilibrá-las para mantê-la em funcionamento apesar de todos os percalços. A paz que seus personagens encontram no fim da história vem para desfazer expectativas vãs de encontrar uma família ideal sem exatamente fazê-los perder a esperança na unidade.

16) A Academia das Musas

O novo filme do espanhol José Luis Guerín é talvez o mais cabeçudo desta lista, graças a seus academicismos em torno da busca que se propõe a realizar. O eruditismo da produção, porém, é somente a base para que Academia das Musas exiba uma discussão profunda sobre a figura mitológica da musa e como esta afeta homens e mulheres. Da problematização desta presença à revelação de seu significado, o longa é exato naquilo que demonstra e evidencia sobre a condição humana.

15) Caça-Fantasmas

Todo o ódio direcionado à refilmagem de Caça-Fantasmas não conseguiu impedir Paul Feig de mais uma vez fazer o que sabe fazer de melhor. Com um time de protagonistas muito bem entrosado, o diretor de A Espiã que Sabia de Menos repetiu sua tiração de sarro com o ideal masculino com o extra de consagrar o feminino como ícone. O resultado é uma obra explosiva, que não tem medo de escrachar seus alvos por diversas modalidades de humor e tem uma nobreza de intenções que transparece na tela de maneira belíssima. Se há uma cena que permanecerá viva na memória é com certeza a do duelo da personagem de Kate McKinnon com incontáveis fantasmas masculinos que avançam contra ela.

14) Sully - O Herói do Rio Hudson

Clint Eastwood é conhecido por manter como temática de seus filmes a construção ou desconstrução do herói americano, algo que com certeza afetou a visão de muitos sobre este Sully - O Herói do Rio Hudson. O curioso do filme - que retrata os acontecimentos que cercaram o pouso de um avião em um dos rios de Nova York - é que o diretor, ainda que preso a seu protagonista, trabalha contra aquilo que origina o arquétipo que o consagrou, tornando o longa em um elogio dos mais afetuosos ao espírito coletivo. Para seu herói, vivido por Tom Hanks com competência de sobra, resta apenas sentir o peso da responsabilidade.

13) Café Society

Eterno defensor da magia (seja qual for sua forma) e do amor em seus filmes, Woody Allen trabalha Café Society sob um olhar mais sóbrio e realista. Seus amantes da vez estão condenados a nunca ficarem juntos, vítimas das circunstâncias sociais e históricas que os cercam, mas o diretor tira deste sentimento melancólico de incompletude uma bela forma de encarar o encantamento subsequente da paixão. É o que faz deste filme, a princípio formado apenas de nostalgia, em uma obra com algo a mais dentro da extensa e bem-sucedida carreira do cineasta.

12) Meu Amigo, o Dragão

Se o Mogli de Jon Favreau trouxe de volta à Disney o encanto conhecido das fábulas infantis, Meu Amigo, o Dragão representou para o estúdio a retomada dos valores profundamente atribuídos a tais contos. Emerso do cenário independente estadunidense, David Lowery refaz na refilmagem da história do menino e seu dragão o valor lendário e geracional dessas fábulas, concebendo um longa que reafirma a unidade familiar como atemporal mesmo em um ambiente contemporâneo. Pode soar antiquado, mas essa percepção do conto confere ao filme uma carga emocional incomparável, capaz de atingir adultos e crianças em igual medida.

11) Elle

Seria impossível não citar nesta lista o explosivo e gerador de discórdias que é o novo trabalho do holandês Paul Verhoeven. Mais uma obra de perversidades do cineasta, Elle eleva ao nível do doentio os jogos sexuais que caracterizam o cinema do diretor, virando a mesa para os desejos sexuais dos homens em relação às mulheres. Isabelle Huppert (de novo ela!) mostra controle absoluto sobre sua personagem em um filme que Verhoeven, acima de tudo, desconstrói de novo a relação do espectador com o prazer.

10) Kubo e as Cordas Mágicas

Abrindo o top 10 de 2016, Kubo e as Cordas Mágicas comprovou para o público este ano que a Laika é um estúdio de animação a ser admirado. Da jornada do herói percorrida pelo menino do shamisen, o estreante na direção Travis Knight concebe uma história tocante e mitológica sobre conflitos familiares, traduzindo dores, anseios, expectativas frustradas e esperanças depositadas sob tamanha unidade em alegorias ilustradas por um belíssimo stop-motion. A relação de Kubo com os pais e o avô podem ser universais, mas ocupam uma esfera particular das mais intensas.

9) Creed - Nascido Para Lutar

De todos os reboots de grandes franquias hollywoodianas que se sucederam até o momento, nenhuma conseguiu acertar tanto e foi ousada no mesmo nível que Creed - Nascido Para Lutar. Preservando os elementos conhecidos da série Rocky, a continuação sob a perspectiva do filho de Apollo Creed leva a história do Garanhão Italiano para o mundo negro, criando uma jornada de provação de seu protagonista que se faz em cima deste cenário. Ao mesmo tempo, o diretor Ryan Coogler reformula e preserva o legado de Sylvester Stallone, que volta ao seu personagem mais uma vez para brilhar. Somado a um arco crescente de adrenalina e um trabalho primoroso de consagração do negro como herói, Creed é uma lição de como fazer cinema pipoca com algo a mais para dizer.

8) Águas Rasas

Sim, um shark porn foi um dos melhores filmes de 2016. Diretor que vem ganhando cada vez mais o merecido destaque, Jaume Collet-Serra realizou com Águas Rasas um exercício de gênero desconcertante, que leva o lado raso da trama (bela mulher contra tubarão assassino) a profundidades fascinantes. O cineasta espanhol alterna com esmero entre o simples e o complexo, provocando a própria posição do espectador com o subgênero que assiste sem esquecer de desempenhar este, com sets de suspense tensos que mergulham muito bem no terror daquilo que é visto e não visto.

7) Certo Agora, Errado Antes

Certo Agora, Errado Antes possui uma forma muito bela de olhar seus protagonistas, um homem e uma mulher que se conhecem por acaso e saem em um encontro certa noite. Por meio de um díptico, o coreano Hong Sang-Soo desconstrói os acontecimentos que se sucederam pela visão dos dois, enxergando somente pelo uso da câmera as aflições e vontades que tomam os dois personagens ao longo do encontro e entendendo seus perfis interiores por completo. Sang-Soo possui aqui uma percepção e compreensão difíceis de se obter e ainda mais de se reproduzir, fabricando uma concepção de paixão efêmera, universal e dolorida. E isso tudo somente pela observação.

6) A Grande Aposta

É inacreditável afirmar isso, mas se havia alguém que poderia resumir o estopim da crise econômica de 2008, este alguém era Adam McKay. Ou, pelo menos, o sentimento: Em A Grande Aposta, o diretor de O Âncora e Tudo por um Furo realiza um panorama envolvente sobre o status dos Estados Unidos da época sem precisar explicar nada sobre economia, centrando-se na missão de levar o espectador a entender como aquele desastre se sucedeu. Uma tarefa realizada com louvor, que primeiro tira sarro do cenário para depois mergulhar no caos consequente.

5) Os Oito Odiados

Em seu oitavo e a princípio antepenúltimo filme da carreira, Quentin Tarantino se envereda por um projeto ambicioso. Seu novo cabin fever faz um retrato do ódio nos Estados Unidos de outrora, criando um verdadeiro caldeirão social pronto para explodir na cabana onde oito personagens se abrigam do frio desconfiados um do outro. Uma obra grandiosa, pretensiosa na medida certa e que entrega um banho de sangue furioso - além de muito divertido.

4) Jovens, Loucos e Mais Rebeldes

Richard Linklater volta a fazer com Jovens, Loucos e Mais Rebeldes mais um panorama geracional dos Estados Unidos, mas dessa vez ele foi pra lá de específico e com objetivos muito diferentes. A princípio algo totalmente despretensioso, a história das aventuras passadas por um grupo de atletas estudantis de beisebol nos três dias finais de suas férias adquire aos poucos um sentido especial, se fazendo como um retrato não de uma década mas de um tipo social muito distinto dentro dela. Pode parecer algo inacreditável, mas o diretor de Boyhood e Escola do Rock aqui consagra o jock universitário como uma verdadeira figura mitológica, de um passado distante do qual não se desprenderá jamais.

3) Aquarius

É sem dúvida alguma o filme que definiu o Brasil em 2016, e isso não é culpa apenas das brigas que gerou. O longa de Kléber Mendonça Filho trabalha tempo e espaço de maneira ímpar, a partir da memória concebendo uma investigação emocional das mais poderosas e enriquecedoras. Mas isso não seria nada sem a atuação de Sônia Braga, que como uma Iemanjá da memória domina Aquarius e torna-se no canal ideal para seu total funcionamento.

2) As Montanhas se Separam

Filme de panorama que vai para o drama emocional sem hesitar, As Montanhas se Separam possui uma forma muito única de traçar uma relação entre o indivíduo e o sentimento nacional. Em três atos/épocas, o chinês Jia Zhangke traz a história de uma relação entre mãe e filho que precisa sobreviver ao teste do tempo e da mudança, da globalização que parece existir aqui apenas para destruir a memória de seus personagens. Do retrato da China de hoje ao drama de incomunicabilidade mais puro, o longa é uma obra complexa e de diferentes camadas, capaz de abordar temáticas universais e particulares ao mesmo tempo sem perder o fino equilíbrio que constrói. Um trabalho espetacular e significativo em diversos níveis de conhecimento.

Mas o melhor filme de 2016 foi...

1) Carol

O "Eu te amo" mais impactante que presenciei no cinema este ano, nesta década, talvez nesta vida. Da adaptação do romance homônimo de Patricia Highsmith, o americano Todd Haynes esboça o que pode ser considerado um dos maiores tratados sobre o amor da existência, enxergando a paixão de duas mulheres de classes e ambientes sociais diferentes pela ótica visual e somente esta. Rooney Mara e Cate Blanchett tornam-se nas mãos do diretor em verdadeiros avatares universais deste sentimento tão natural, traduzidos em movimentos, toques e olhares que vão muito além daquilo que é dito. Carol é uma obra singular naquilo que propõe, que reafirma o amor como força em tempos onde este fato parece ser cada vez mais esquecido. 

Rankings

Por mês:
E a versão final do Ranking 2016 de Cinema:

  1. Carol (10/10)
  2. As Montanhas se Separam
  3. Aquarius
  4. Jovens, Loucos e Mais Rebeldes (9/10)
  5. Os Oito Odiados
  6. A Grande Aposta
  7. Certo Agora, Errado Antes
  8. Águas Rasas (8/10)
  9. Creed - Nascido Para Lutar
  10. Kubo e as Cordas Mágicas [7/10 antes da revisão]
  11. Elle
  12. Meu Amigo, o Dragão
  13. Café Society
  14. Sully - O Herói do Rio Hudson
  15. Caça-Fantasmas
  16. A Academia das Musas
  17. Depois da Tempestade
  18. Rua Cloverfield, 10
  19. Cinco Graças
  20. Vizinhos 2 [9/10 antes da revisão]
  21. Cemitério do Esplendor
  22. Belos Sonhos
  23. O Ignorante
  24. O que Está por Vir
  25. A Assassina
  26. Mogli - O Menino Lobo
  27. Conspiração e Poder
  28. Desajustados [9/10 antes da revisão]
  29. Batman vs Superman - A Origem da Justiça (7/10)
  30. Creepy
  31. Amor e Amizade
  32. Mais Forte que Bombas
  33. Invocação do Mal 2
  34. Boi Neon
  35. Doutor Estranho
  36. Neruda
  37. Trumbo - Lista Negra
  38. Ave, César!
  39. Ouija - Origem do Mal
  40. X-Men - Apocalipse
  41. O Quarto de Jack
  42. Cinema Novo
  43. Bruxa de Blair
  44. O Conto dos Contos
  45. Mãe Só Há Uma
  46. Kung Fu Panda 3
  47. Para Minha Amada Morta
  48. Filho de Saul
  49. Como Ser Solteira
  50. É o Amor
  51. White God
  52. Janis Joplin - Little Girl Blue
  53. O Abraço da Serpente
  54. Body
  55. Tangerine (6/10)
  56. Brooklyn
  57. Mate-me Por Favor
  58. Nerve - Um Jogo Sem Regras
  59. Horizonte Profundo - Desastre no Golfo
  60. A Bruxa
  61. Julieta [5/10 antes da revisão]
  62. De Amor e Trevas
  63. 13 Horas - Os Soldados Secretos de Benghazi
  64. O Dono do Jogo
  65. O Silêncio do Céu
  66. Invasão Zumbi
  67. Star Trek - Sem Fronteiras
  68. Sangue do meu Sangue
  69. Capitão América - Guerra Civil [7/10 antes da revisão]
  70. O Lobo do Deserto
  71. Rogue One - Uma História Star Wars
  72. Spotlight - Segredos Revelados
  73. 12 Horas para Sobreviver - O Ano da Eleição
  74. Sinfonia da Necrópole
  75. O Nascimento de uma Nação
  76. Espaço Além - Marina Abramovic e o Brasil
  77. Procurando Dory
  78. A Garota no Trem
  79. A Última Premonição
  80. Dois Caras Legais
  81. Capitão Fantástico
  82. Anomalisa
  83. Independence Day - O Ressurgimento [8/10 antes da revisão]
  84. Rock em Cabul
  85. Steve Jobs
  86. A Juventude
  87. Jack Reacher - Sem Retorno
  88. A Ovelha Negra
  89. O Bom Dinossauro
  90. O Plano de Maggie
  91. O Bom Gigante Amigo (5/10)
  92. Joy - O Nome do Sucesso
  93. O Caçador e a Rainha de Gelo
  94. Tirando o Atraso [4/10 antes da revisão]
  95. Zootopia - Essa Cidade é o Bicho
  96. A Chegada
  97. Cães de Guerra
  98. O Homem nas Trevas
  99. Sieranevada
  100. Festa da Salsicha
  101. Animais Fantásticos e Onde Habitam
  102. Alice Através do Espelho
  103. Francofonia - Louvre Sob Ocupação
  104. Jason Bourne
  105. Fogo no Mar
  106. Snoopy e Charlie Brown - Peanuts, O Filme
  107. Deadpool
  108. Inferno
  109. Florence - Quem É Essa Mulher?
  110. A Senhora da Van
  111. Tudo Vai Ficar Bem
  112. Futuro Junho
  113. Nosso Fiel Traidor
  114. Elis
  115. O Lar das Crianças Peculiares (4/10)
  116. O Demônio de Neon
  117. Os Caça-Noivas
  118. Negócio das Arábias
  119. A Última Ressaca do Ano
  120. Como Eu Era Antes de Você
  121. Irmãs
  122. Horas Decisivas
  123. Snowden - Herói ou Traidor
  124. Jogo do Dinheiro
  125. Zoolander 2
  126. Boneco do Mal
  127. A Luz Entre Oceanos
  128. O Caseiro
  129. Amor por Direito
  130. A Lenda de Tarzan
  131. Um Espião e Meio
  132. As Tartarugas Ninja - Fora das Sombras
  133. A Garota Dinamarquesa
  134. Quando as Luzes se Apagam
  135. O Botão de Pérola
  136. Warcraft - O Primeiro Encontro de Dois Mundos
  137. Porta dos Fundos - Contrato Vitalício
  138. Um Homem Entre Gigantes
  139. Canção da Volta
  140. Pequeno Segredo
  141. A Maldição da Floresta (3/10)
  142. Zoom
  143. Voando Alto [2/10 antes da revisão]
  144. Últimos Dias no Deserto
  145. Orgulho e Preconceito e Zumbis
  146. Reza a Lenda
  147. Animais Noturnos
  148. O Regresso
  149. Caçadores de Emoção - Além do Limite
  150. Perfeita é a Mãe!
  151. Angry Birds - O Filme
  152. Boa Noite, Mamãe
  153. De Longe Te Observo (2/10)
  154. Sete Homens e um Destino
  155. Truque de Mestre - O Segundo Ato
  156. Esquadrão Suicida

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