Oscar 2017

Tudo sobre a premiação deste ano!

Cinquenta Tons Mais Escuros

Série ganha novo fôlego com mudança de eixo, mas se mantém presa a velhos problemas

Estrelas Além do Tempo

Filme emancipa protagonistas como heroínas contra opressão pelo esquecimento

La La Land - Cantando Estações

O sonho americano em tempos de individualidade extrema

Manchester à Beira-Mar

Kenneth Lonergan aproveita muito bem seu elenco para perpetuar filme pautado pela dor

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Crítica: Um Limite Entre Nós

Reverencialismo e tom solene são os principais nomes na transposição de peça para o cinema.

Por Pedro Strazza.

Adaptação da peça homônima escrita pelo vencedor do Pulitzer August Wilson, Um Limite Entre Nós nasce de um clima de solenidades que se fará perceptível por toda a sua duração. O longa, afinal, tem raízes do reencenamento da obra ocorrido em 2010 na Broadway - que trazia Viola Davis e Denzel Washington nos papéis principais, ambos depois agraciados com o Tony por seus trabalhos - e traz nos créditos o único nome de Wilson como autor do roteiro, embora este tenha falecido há mais de dez anos.

Apesar de externos, estes dois fatos parecem servir de chave ao filme para compreender suas decisões narrativas iniciais, até porque a produção dirigida por Washington se assume do princípio como o que muitos chamam de "peça filmada". Transpondo os cenários da peça para a realidade dos subúrbios mais pobres de Pittsburgh, a obra traduz para a tela todo o material teatral em caráter reverencial, tratando como intocável os diálogos e dinâmicas de cena escritos por Wilson nos anos 80. A história mantém-se idêntica: nos anos 50, um coletor de lixo chamado Troy Maxson (Washington) procura viver com sua esposa Rose (Davis) e o filho Cory (Jovan Adepo) a partir de seus termos, mas sua atitude agressiva com a cria e os próprios erros cometidos na vida logo começam a fazer ruir a harmonia em casa.

Dedicado em manter o legado do autor intacto, Washington parte aqui de uma proposta de reprodução pura e simples, apoiando-se no talento de seus atores e na maneira como trabalham seus papéis com a mesma voracidade e pompa do teatro como forma principal de refazer na tela o mesmo sucesso da peça. É um filme então que se dedica ao elenco e seu ofício, com a câmera estando encarregada somente de fazer closes e planos longos para que os personagens tenham todo o espaço e tempo de tela para se desenvolverem.

É uma lógica de boas intenções, mas que peca por não diferenciar o espaço teatral do cinematográfico. Se no campo da performance tudo parece estar no lugar certo, a narrativa desenvolvida pelo diretor constantemente vai contra suas próprias forças, minando momentos fortes da trama com cortes e enfoques que se distanciam do núcleo dramático em ação. Até o espaço de cena, a casa onde grande parte da trama se situa, é subaproveitada, com elementos como o aparato metafórico da cerca construída por Troy a mando de Rose para manter a família unida ou a bola e o taco de baseball pendurados na árvore sendo reduzidos a meras figurações ora ou outra tocadas.

Embora os fins sejam muito diferentes, os erros cometidos por Washington na direção de Um Limite Entre Nós lembram muito os que ele fez em seu trabalho anterior, O Grande Desafio. Seja na adaptação do trabalho de Wilson ou na cinebiografia sobre a primeira equipe de debate de uma universidade negra a disputar competições em âmbito nacional, o cineasta aposta tanto na força das palavras proferidas por seus atores que subaproveita o potencial da trama em prol disso. São duas obras que partem com esta lógica dada como certa para seu sucesso, mas que depois recaem em um vazio emocional inerte por abandonarem o drama e suas ramificações.

No caso de Um Limite Entre Nós, esta problemática só se aprofunda conforme o tom solene e engrandecedor do material original fica evidente. Ao mesmo tempo, porém, o filme acaba equilibrando a balança graças ao próprio esforço do elenco, que apesar de sabotado está muito dedicado para passar despercebido (principalmente Davis, cuja personagem oferece momentos emblemáticos suficientes), e a força do material, de novo uma tábua de salvação e condenação a Washington e que aqui e ali oferece relances de todo o seu potencial não executado. A opção por uma transposição literal ao invés de uma adaptação pode fazer do longa fraco e inoperante na maioria do tempo, mas ele também não é capaz de apaziguar ou ocultar seu conteúdo por completo.

Nota: 4/10

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Crítica: A Grande Muralha

Espetáculo de cores, filme concilia cinemas de ação entre países sob o espectro da justaposição.

Por Pedro Strazza.

Em tempos em que a China torna-se cada vez mais uma fonte de renda central às produções hollywoodianas, é inevitável que os grandes estúdios comecem a lançar no mercado obras que atendam ao público chinês, trazendo franquias milionárias ao país (caso do último Transformers), importando mão-de-obra e realizando co-produções com produtoras nacionais. Mais recente caso destes últimos dois exemplos - ele é resultado de uma parceria da Universal e da Legendary com a China Film Group, além de trazer Zhang Yimou na direção - A Grande Muralha segue uma linha de raciocínio de conciliação bastante clara de conciliação entre os cinemas chinês e estadunidense, mas o faz com uma consciência muito particular.

Escrito por Max Brooks, Doug Miro e Tony Gilroy, o filme segue William (Matt Damon) e Tovar (Pedro Pascal), dois mercenários europeus que viajam pelo continente asiático em busca do pó negro, uma lendária arma poderosíssima que é nada menos que a pólvora. Depois de sobreviverem à uma jornada perigosa, a dupla acaba sendo feita prisioneira na Grande Muralha, fortificação que além de servir de proteção ao reino contra os esforços dos mongóis também defende a nação de uma ameaça misteriosa e muito poderosa. Depois de libertados pelo exército da construção, a dupla precisa se decidir entre cumprir a missão original ou ajudar os chineses contra este terrível mal.

Bastante direto e despretensioso na proposta, o longa logo se estabelece como um típico filme de defesa do forte para executar cenas de ação assumidas do princípio como provindas de uma produção B, seja pelos efeitos visuais pobres ou nas repetidas frases de efeito. Diretor nascido nos épicos chineses do gênero, Yimou realiza em A Grande Muralha mais um dos seus balés visuais de capa e espada, empregando cores berrantes no figurino do exército da Muralha (cada uma das tropas ganha uma cor diferente, quase como um Power Rangers de grande escala) e nas criaturas para conceber uma ação cartunesca e que varia conforme o cenário da batalha muda.

Yimou, porém, também tem consciência do contato cultural que promove no filme, principalmente no uso de seus personagens e nos perfis empregados para construí-los. Além do espetáculo circense, o longa também se situa dentro do contraste entre as estruturas clássicas das grandes produções chinesas e americanas, justapondo as relações de honra e coletivo do primeiro - a comandante Lin (Tian Jing), ainda que seja a maior presença do lado asiático, é tão orientada para a "causa" quanto os outros - e os grandes heróis solitários de motivações particulares do segundo - Damon de início até parece no visual com William Wallace quando sujo e barbado - em busca de semelhanças que os unam. Tudo na obra gira em torno da discussão do "Somos diferentes" e se ela procede ou não como uma verdade absoluta.

Não dá pra saber até que ponto o diretor consegue manejar esta temática sem se perder nos inúmeros estereótipos empregados, até porque este senso de coletivo do filme logo se esvazia na computação gráfica e nos personagens coadjuvantes que entram e saem sem serem notados (o papel de Willem Dafoe é especialmente esquecível) enquanto o lado ocidental perde fôlego na hora de justificar a culpa do passado (pelas motivações de William se percebe que Yimou não se interessa mesmo por uma ação construída no drama), mas esta busca sutil por um ponto de união entre as duas nações e seus cinemas torna A Grande Muralha funcional na proposta. Seja nas demonstrações de habilidade do progonista, nas bolas de fogo que cobrem os céus das batalhas na muralha ou nas capas coloridas e esvoaçantes, tudo no filme gira em torno de um espetáculo exuberante e ao mesmo tempo consciente de suas limitações.

Nota: 5/10

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Crítica: Moonlight - Sob a Luz do Luar

Tríptico eleva ideal de masculino ao posto de maldição sob atuação de um paradoxo intrigante.

Por Pedro Strazza.

Das correlações que pode-se fazer entre os indicados ao Oscar de Melhor Filme deste ano, a mais curiosa é sem dúvida a coincidência da entrada na categoria de filmes que parecem tirar da virilidade de seus protagonistas masculinos um alicerce fundamental para sua proposta e execução, como é o caso de Até o Último Homem, Manchester à Beira-Mar, A Qualquer Custo e Moonlight - Sob a Luz do Luar. Este último, porém, possui um contraste gritante em relação ao resto: se as outras três produções trabalham este item totêmico à figura masculina tradicional como uma base segura de suas histórias, a adaptação da peça de teatro de Tarell Alvin McCraney torna-o um elemento central de discussão.

Já se percebe a presença desta temática no filme logo em seus primeiros momentos, conforme o vistoso carro do traficante Juan (Mahershala Ali) surge ocupando grande espaço do plano, como se anunciasse seu perfil como ideal ao cenário proposto. Situado em uma periferia desfavorecida e maioria populacional negra de uma cidade não identificada nos Estados Unidos, o longa escrito e dirigido por Barry Jenkins se faz como um tríptico, dividido em momentos distintos da vida do protagonista Chiron - respectivamente a infância (Alex Hibbert), a adolescência (Ashton Sanders) e a fase adulta (Trevante Rhodes) - para tentar entender o processo que leva um garoto vítima de bullying a se tornar em uma engrenagem do tráfico quando adulto.

As respostas de início são várias. Da mãe vítima do crack (Naomie Harris) à clara figura paterna encontrada em Juan, passando pelo lar instável e a violência inerente ao bullying feito ao protagonista, Jenkins promove a princípio um filme de vieses genéricos ao mesmo tempo que privilegia na narrativa as suas relações masculinas, aos poucos construídas como elementos centrais da estrutura do longa. Conforme Chiron vai crescendo, a história também revela o porquê desta decisão, que dissolve as supostas causas imediatas e as substitui por uma mais particular e pertencente ao mundo dos homens.

O que Jenkins busca fazer em Moonlight é tornar o ideal masculino em uma espécie de maldição para seus personagens, um tormento gerado pela sociedade e carregado por todo indivíduo desde a infância que o impede de assumir sua real identidade, seja esta qual for. Dominado por relações de presa e predador (seja na escola ou no tráfico) e acompanhado pela trilha enervante de Nicholas Britell, o mundo habitado por Chiron exige dele constantemente uma condição viril que parecem não condizer com seu perfil de início inocente, mas conforme o tempo passa ele é obrigado a se colocar em um dos pólos em ordem de sobrevivência. Não existem aqui válvulas de escape ou meios alternativos: para o garoto, a lógica de vida passa em caráter inexorável por uma questão de matar ou morrer.

Esta percepção de ambiente no qual o filme caminha torna sua proposta ao mesmo tempo tão atraente quanto limitada em suas intenções. Se Jenkins por um lado torna a narrativa harmoniosa ao se apoiar nas relações que servem de alicerce à temática - algo que potencializa o trabalho de seu elenco, principalmente Ali e Harris na brevidade de suas participações - sua percepção daquele mundo também priva a produção de desenvolver com propriedade conflitos que sem dúvida dariam substância a seus objetivos, relegando-os a condições inertes e pouco efetivas para o que está em jogo ali - a situação, por exemplo, das duas mães de Chiron, no caso a biológica e a namorada de Juan, Teresa (Janelle Monáe), nunca chega a ser explorada direito pelo roteiro.

São ausências a serem sentidas no decorrer da história, que ademais soa um pouco indecisa sobre o tipo de obra que quer se adequar. Se Moonlight se comporta como o típico filme introspectivo, trabalhado de maneira a compreender o estado emocional do indivíduo em momentos-chave de transformação, ele ao mesmo tempo também parece almejar uma universalidade a seus atos e metamorfoses, esvaziando dramas para atingir qualquer tipo de espectador. O mundo de Chiron é particular em simultâneo que mostra-se comum, e tal paradoxo acaba por atuar contra e a favor da produção como uma espécie de maldição própria.

Nota: 7/10

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Crítica: John Wick 2 - Um Novo Dia Para Matar

Sequência abandona a paródia e aposta na manipulação do espaço para expandir seu conceito de ação.

Por Pedro Strazza.

Há uma recorrência bastante evidente do cinema mudo em John Wick 2 - Um Novo Dia Para Matar, seja por uma questão de referência da produção - a primeira coisa que o espectador enxerga no filme depois da visão aérea de Nova York é uma cena de uma comédia de Buster Keaton projetada em um dos prédios da cidade - ou de elemento cênico, a exemplo da guarda-costas interpretada por Ruby Rose. É nas cenas de ação, entretanto, que se sente mais a presença e também o porquê do formato surgir na obra como maior influência do diretor Chad Stahelski, que em meio a tiroteios e confrontos físicos revela um olhar bastante atento às maneiras como seus personagens se movimentam para executar o outro.

A fisicalidade é, de certa forma, o grande foco narrativo da continuação de De Volta ao Jogo, que abandona os ares de paródia do original ao mesmo tempo em que eleva a construção de suas sequências de ação. Surgido no mercado como dublê, Stahelski mantém a princípio neste segundo capítulo o foco no trabalho corporal dos atores enquanto estes se enfrentam em brigas muito bem coordenadas, algo que a abertura, pautada nos esforços finais do assassino aposentado John Wick (Keanu Reeves) de reaver seu carro, ressalta rapidamente na forma como enquadra as perseguições de carro e embates do protagonista contra os capangas do mafioso Abram Tarasov (Peter Stormare).

São cenas que, assim como as presentes no resto do filme, surgem na tela como um grande balé, onde ao invés de bailarinos e tutus vê-se na tela homens e mulheres engravatados trocando tiros e socos em qualquer situação, a pé ou de carro. Sendo John Wick e o guarda-costas Cassian (Common) atirando um no outro discretamente em uma estação de metrô povoada de transeuntes ou uma recepção nada acalorada como a que o protagonista recebe em Nova York depois de ter sua cabeça posta a prêmio, Stahelski perpetua aqui uma ação de proposta similar aos dos musicais tradicionais, que visavam acima de tudo por um espetáculo visual de arrebatamento por meio de cores e coreografias grandiosas. É uma noção de ação quase idêntica ao do cinema asiático do gênero, cujos cineastas também servem como um norte muito claro aos esforços empreendidos por Um Novo Dia Para Matar.

Esta dinâmica na narrativa já torna este segundo John Wick muito mais fascinante que o primeiro - uma paródia dos heróis de ação solitários, amargurados e silenciosos que ora ou outra se confundia com a própria seriedade engendrada -, mas é a forma como este "balé da morte" se combina com arco do protagonista que o torna em algo a mais na sua proposta. Se Wick no original procurava a paz se aposentando mas ia atrás da máfia russa por ter sua febre de violência despertada à força, na continuação Stahelski e o roteirista Derek Kolstad fazem de sua busca por uma saída do sistema que habita e da sua natureza violenta uma questão de choque inevitável, cuja maior vítima a ser feita no processo é o próprio espaço da ação habitado por ele.

Para isso acontecer na tela, o diretor aposta em um arco crescente de desestabilização dos cenários, que partem de uma situação controlada (o filme projetado no prédio, a cena no desmonte da máfia é a que soa mais natural no visual) para aos poucos se tornarem mais e mais manipulados até chegarem a um ponto de enlouquecimento. Kolstad aqui expande a mitologia da agora série não apenas para acentuar o viés místico formado em torno de seu protagonista - algo que fica muito divertido conforme a história parece comprovar as lendas dos feitos de Wick, como no caso do conto do lápis - mas também para deixar ainda mais evidente o quão impossível é o objetivo do assassino de abandonar aquele mundo. O encontro final de John com o gerente do hotel, Winston (Ian McShane), é um ápice na fragilidade gerada pelo primeiro neste sentido: ao tentar sair, ele praticamente revela o nível de controle e ilusão ao qual ele e o resto da sociedade estão submetidos.

Se esta questão será resolvida ou não isso fica para o inevitável terceiro capítulo (que ganha um gancho pra lá de direto), mas dentro da sua própria estrutura John Wick 2 consegue ser bastante eficiente em sanar esta frustração do momento pela ação. Ao recorrer à fisicalidade do cinema mudo como inspiração para seu balé, Stahelski também assume um compromisso com o uso dos espaços como forma de extravasar a violência de seu protagonista, algo que fica evidente conforme o filme aumenta aos poucos os jogos de ilusão das situações em que mergulha seus personagens. Uma decisão pra lá de prazerosa, como bem esclarece o clímax do terceiro ato no museu com seus espelhos e cores néon berrantes.

Nota: 8/10

ESPECIAL: Oscar 2017

Tudo sobre a 89° edição dos Academy Awards!

Outros indicados

Edições anteriores

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Bolão do Oscar 2017

Os favoritos, as possíveis zebras e o panorama geral da corrida pela estatueta.

Por Pedro Strazza.

Pode não parecer, mas vai chegando a hora de mais uma entrega do Oscar, o troféu concedido por Hollywood aos melhores da indústria cinematográfica  e também um dos prêmios mais conhecidos (e cobiçados) no mundo. Com o apresentador Jimmy Kimmel de mestre de cerimônia, a 89° edição dos Academy Awards se aproxima de sua realização com várias perguntas: quem será o grande vencedor da noite? Quantos Oscar La La Land é capaz de levar para casa? Viola Davis enfim será reconhecida pelos votantes? Será que as longas três horas de duração da cerimônia passarão rápido desta vez?

A última pergunta só vai dar pra saber mesmo no domingo, mas com as outras questões já dá pra ir brincando. Em sua quinta edição e com preposição nova no nome, o Bolão do Oscar vem para ajudar quem está com dificuldades para montar sua lista de apostas para o prêmio e tentar mapear o cenário da corrida pela estatueta em todas as categorias. São previsões que podem ou não se provar corretas, mas que já ajudam a esclarecer quem é quem nas múltiplas disputas em curso na premiação.

Vamos aos indicados:

Legenda

  • Negrito: Grande(s) favorito(s)
  • Itálico: Ainda na disputa
  • (0): Sem chances de vitória
  • (F): Favorito pessoal

Melhor Filme

La La Land pode ter despertado o ódio em alguns, mas definitivamente é o grande favorito para a principal estatueta da noite. O musical ambientado em Los Angeles de Damien Chazelle vem dominando todos os prêmios desde o Globo de Ouro, levando prêmios de importantes sindicatos como dos produtores (o PGA) e dos diretores (o DGA) no processo. 

Seus principais oponentes na disputa são Moonlight e Estrelas Além do Tempo, mas ambos estão longe. O filme de Barry Jenkins começou a corrida como forte candidato, mas não conquistou nenhum grande título na temporada de premiações (nem mesmo o BAFTA) além do Globo de Ouro de Melhor Filme de Drama (ao qual não corria junto de La La Land) e acabou perdendo força. Já a cinebiografia de matemáticas negras que foram vitais para a corrida espacial nos anos 60 ganhou algum espaço depois da inesperada vitória no sindicato de atores (o SAG), mas as poucas indicações na premiação - junto de sua inexpressividade nos outros sindicatos - o impedem de almejar o prêmio pra valer.

Ainda que suas chances sejam tão mínimas quanto o resto dos indicados, Manchester à Beira-Mar e A Chegada ainda mantém seu lugar na corrida, podendo talvez tirar votos importantes que possam decidir uma virada totalmente inesperada na reta final do prêmio. A mão que ergue o Oscar, porém, treme forte para La La Land.

Melhor Direção

  • Mel Gibson (Até o Último Homem) (0)
  • Dennis Villeneuve (A Chegada)
  • Damien Chazelle (La La Land - Cantando Estações)
  • Kenneth Lonergan (Manchester à Beira-Mar) (F)
  • Barry Jenkins (Moonlight - Sob a Luz do Luar)
Como em outros anos, a categoria de direção repete mais ou menos a disputa de Melhor Filme. Chazelle é favorito máximo para levar o prêmio, mas suas chances de vitória estão ameaçadas pelo trabalho de Jenkins em Moonlight. Kenneth Lonergan e Denis Villeneuve seguem mais atrás, enquanto Mel Gibson já chega à cerimônia contente de ter sido resgatado do ostracismo pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas.

Melhor Roteiro Adaptado

  • A Chegada
  • Estrelas Além do Tempo
  • Um Limite Entre Nós (0)
  • Lion - Uma Jornada Para Casa (0)
  • Moonlight - Sob a Luz do Luar (F)

Melhor Roteiro Original

  • La La Land - Cantando Estações
  • O Lagosta
  • Manchester à Beira-Mar
  • Mulheres do Século 20 (0)
  • A Qualquer Custo (F)
As categorias de roteiro este ano vem com uma carga de mistério maior graças à confusão gerada por Moonlight na premiação do sindicato de roteiristas - o filme, embora seja a adaptação de uma peça nunca encenada, foi indicado e venceu em Melhor Roteiro Original no WGA Awards.

A passagem entre categorias do longa escrito por Jenkins no sindicato, porém, ajuda a esclarecer um pouco melhor quem ainda está na disputa para Melhor Roteiro Adaptado, onde Moonlight é o franco favorito. A vitória de A Chegada no WGA só comprova que a ficção-científica roteirizada por Eric Heisserer segue de perto o drama negro. Quem pode surpreender aqui é Estrelas Além do Tempo, que deposita na categoria todas as suas chances de ganhar força para o prêmio de Melhor Filme.

O prêmio de Roteiro Original, enquanto isso, está dividido. Manchester à Beira-Mar mantém a frente desde o início, mas conforme ele foi perdendo na temporada o destaque que tinha no início as chances de La La Land arrebanhar mais uma estatueta aqui aumentaram consideravelmente. A Qualquer Custo e O Lagosta podem até surpreender, mas Mulheres do Século 20 com certeza ocupa o último lugar da corrida. 

Melhor Ator

  • Andrew Garfield (Até o Último Homem) (F)
  • Viggo Mortensen (Capitão Fantástico) (0)
  • Denzel Washington (Um Limite Entre Nós)
  • Ryan Gosling (La La Land - Cantando Estações)
  • Casey Affleck (Manchester à Beira-Mar)

Melhor Ator Coadjuvante

  • Michael Shannon (Animais Noturnos) (0)
  • Dev Patel (Lion - Uma Jornada Para Casa)
  • Lucas Hedges (Manchester à Beira-Mar)
  • Mahershala Ali (Moonlight - Sob a Luz do Luar)
  • Jeff Bridges (A Qualquer Custo) (F)
Em 2017 a briga é muito boa em Melhor Ator. Embora Casey Affleck seja o principal candidato ao prêmio desde o começo, a vitória de Denzel Washington no SAG bagunçou e polarizou a corrida entre os dois atores. Por causa da força de La La Land na premiação Ryan Gosling ainda pode arrancar uma vitória de última hora, ao passo que Andrew Garfield e principalmente Viggo Mortensen parecem bem conformados em sair da cerimônia de mãos abanando.

Já Melhor Ator Coadjuvante parece estar bem resolvido, pois Mahershala Ali dominou a temporada de premiações do começo ao fim. Dev Patel segue na esperança graças ao prêmio recebido no BAFTA, mas sinceramente? Se for para apostar em alguém aqui, vá de Ali e Moonlight.

Melhor Atriz

  • Isabelle Huppert (Elle) (F)
  • Meryl Streep (Florence - Quem é Essa Mulher?) (0)
  • Natalie Portman (Jackie)
  • Emma Stone (La La Land) (F)
  • Ruth Negga (Loving)

Melhor Atriz Coadjuvante

  • Octavia Spencer (Estrelas Além do Tempo)
  • Viola Davis (Um Limite Entre Nós)
  • Michelle Williams (Manchester à Beira-Mar) (F)
  • Naomie Harris (Moonlight - Sob a Luz do Luar) (F)
  • Nicole Kidman (Lion - Uma Jornada Para Casa) (0)
Falando em categorias bastante resolvidas, a estatueta de Atriz Coadjuvante já deve estar a essa altura com o nome de Viola Davis impresso na base. A atriz dominou de cabo a rabo uma categoria que este ano está bastante forte e com tantas atuações excelentes, além de com grande diversidade étnica.

Melhor Atriz também aparenta estar fechada com a performance de Emma Stone em La La Land, mas neste caso paira a dúvida sobre o quão forte chegará Isabelle Huppert na competição. Apesar desta ser a primeira oportunidade da Academia premiar a veterana atriz francesa, que sem dúvida teve em 2016 um ano brilhante, pesa contra Huppert a resistência de uma parcela dos votantes em assistir o filme pelo qual ela foi indicada, o polêmico Elle do sempre polêmico Paul Verhoeven. A briga é boa, ainda mais porque Meryl Streep está bem de fora.

Melhor Animação

Melhor Documentário

  • A 13° Emenda
  • Fogo no Mar (0)
  • Eu Não Sou Seu Negro
  • Life, Animated
  • O.J.: Made in America (F)

Melhor Filme Estrangeiro

Categorias que sempre trazem títulos interessantes para o Oscar, as corridas pelas estatuetas de Animação, Documentário e Filme Estrangeiro este ano possuem status bastante distintos. A primeira, por exemplo, já está consumada pela vitória de Zootopia, novo filme da Disney cuja temática do preconceito agradou a ampla maioria dos votantes. Quem pode estragar a festa, porém, é Kubo e as Cordas Mágicas, grande animação do estúdio Laika que tem uma boa parcela de fãs na Academia.

Na briga pelo Oscar de Documentário, o prêmio é incerto justamente pelo nível de aceitação dos votantes com o gigante O.J.: Made in America, documentário de oito horas da ESPN sobre o ex-jogador de futebol americano O.J. Simpson. O longa, afinal, tem sido objeto de discussão sobre ser ou não ser um filme por ter seu formato enquadrado como o de uma série de episódios, e este debate pode aumentar as chances dos outros indicados. Entre eles, o que ganha mais fôlego na corrida é o Life, Animated de Roger Ross Williams, que por ser o único documentário "inofensivo" nomeado - os outros quatro tratam de temas políticos pesados como a questão racial nos EUA e da imigração na Europa - se enquadra perfeito no padrão dos vencedores da categoria nos últimos anos.

Política, vale dizer, é o grande fator a confundir as apostas para Melhor Filme Estrangeiro este ano. A princípio tido como dividido entre o alemão Toni Erdmann e o dinamarquês Terra de Minas, o favoritismo do prêmio de súbito se deslocou para o iraniano O Apartamento depois da medida de barrar a entrada de pessoas do país nos EUA empreendida pelo presidente Donald Trump impedir que o celebrado cineasta e autor do indicado Asghar Farhadi marcasse presença na cerimônia. Uma vitória de O Apartamento com certeza se traduziria na resposta de Hollywood ao governo, mas não dá pra saber o quão empenhado politicamente os votantes estão com esta proposta.

Melhor Animação em Curta-Metragem

Melhor Documentário em Curta-Metragem

  • 4.1 Miles (F)
  • Extremis (0)
  • Joe's Violin
  • Watani: My Homeland
  • The White Helmets

Melhor Curta-Metragem

  • Ennemis Intérieurs
  • La Femme et le TGV
  • Silent Nights
  • Sing
  • Timecode
As categorias de filmes em curta-metragem sempre são um mistério por causa da grande dificuldade de acesso aos indicados, mas eles também tem seus favoritos. Em documentário, Joe's Violin segue a cartilha inofensiva do gênero dentro da premiação e por isso mesmo tem de tudo para levar a estatueta; na animação, a briga é boa entre o fofo curta da Pixar Piper e o filme em 360° Pearl; na principal do formato, o dinamarquês Silent Nights é apontado entre os especialistas como grande favorito.

Melhor Fotografia

  • A Chegada
  • La La Land - Cantando Estações
  • Lion - Uma Jornada Para Casa
  • Moonlight - Sob a Luz do Luar (F)
  • Silêncio (0)

Melhor Montagem

  • Até o Último Homem
  • A Chegada
  • La La Land - Cantando Estações
  • Moonlight - Sob a Luz do Luar (F)
  • A Qualquer Custo (0)
As categorias de montagem e fotografia em 2017 são idênticas no status da corrida: La La Land e A Chegada estão na frente e em pé de igualdade, mas podem ser atropelados por um terceiro elemento. No caso da montagem, este terceiro é Moonlight, que pode ganhar pontos para Melhor Filme aqui; para fotografia, a vitória de Lion na ASC Awards (o prêmio da Sociedade Americana de Diretores de Fotografia, que nos últimos dez anos coincidiu com o Oscar em seis ocasiões) o garante lugar na briga. 

Melhor Trilha Sonora

  • Jackie
  • La La Land - Cantando Estações
  • Lion - Uma Jornada Para Casa (F)
  • Moonlight - Sob a Luz do Luar
  • Passageiros (0)

Melhor Canção

  • "The Empty Chair" (Jim: The James Foley Story) (0)
  • "Audition (The Fools Who Dream)" (La La Land - Cantando Estações)
  • "City of Stars" (La La Land - Cantando Estações)
  • "How Far I'll Go" (Moana - Um Mar de Aventuras)
  • "Can't Stop The Feeling" (Trolls) (F)
Nas categorias musicais do Oscar a probabilidade de La La Land dominar é gigantesca. O curioso, porém, é que enquanto o prêmio de Trilha Sonora soa como algo garantido (o esforço do compositor Justin Hurwitz, que passou cinco anos aperfeiçoando as músicas do filme, é o tipo de história que agrada muito os ouvidos dos votantes), a estatueta de Melhor Canção encontra-se ameaçada por uma possível divisão nos votos das duas músicas pelo qual La La Land foi nomeada, algo que pode favorecer muito Moana e Lin-Manuel Miranda, nome atualmente muito forte na indústria por causa do sucesso estrondoso de seu musical Hamilton.

Melhor Design de Produção

Melhor Figurino

  • Aliados (0)
  • Animais Fantásticos e Onde Habitam
  • Florence - Quem é Essa Mulher?
  • Jackie
  • La La Land - Cantando Estações (F)
As chances de rapa de La La Land continuam altas em Figurino e Design de Produção. A reconstituição histórica de filmes de época como Jackie, Ave, César! e Animais Fantásticos e Onde Habitam e o visual clean de A Chegada se posicionam nestas categorias como maiores oponentes, mas é difícil ver os votantes saírem do transe proporcionado pelas cores do musical para votar em outros nomeados.

Melhor Maquiagem e Penteados

Melhores Efeitos Visuais

As corridas de Maquiagem e Penteados e Efeitos Visuais este ano são acirradas porque elas, ao contrário de edições anteriores, não tem em 2017 um favorito absoluto. Claro que o trabalho de envelhecimento do sueco Um Homem Chamado Ove dificilmente perde a primeira estatueta para o último Star Trek e a briga no segundo se resume entre os animais fotorrealistas de Mogli e as criaturas e o Tarkin de Rogue One, mas nas duas há grande potencial para reviravoltas.

De garantido mesmo só a impossibilidade de Esquadrão Suicida levar um Oscar, um evento/vexame pra lá de improvável.

Melhor Edição de Som

Melhor Mixagem de Som

La La Land, de novo? É verdade que o filme também é favorito para as categorias de som e pode ampliar o número de prêmios aqui, mas estas são vitórias nem um pouco definidas. Mesmo que azarões como Sully, Horizonte Profundo e 13 Horas sejam improváveis, as presenças de A Chegada e principalmente Até o Último Homem se fazem ameaças reais para o musical, podendo roubar as duas estatuetas na hora H.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Crítica: Lion - Uma Jornada Para Casa

Melodrama eficiente, filme tem potencial frustrado por escolhas muito seguras.

Por Pedro Strazza.

A maneira como são apresentados os créditos iniciais de Lion - Uma Jornada Para Casa já são um indício de que o filme produzido pelos irmãos Weinstein e indicado a seis categorias do Oscar almeja ir além da proposta emocional no qual se situa a princípio. Baseado no livro autobiográfico de Saroo Brierley, o longa estabelece nesse início um viés espacial inusitado, registrando por planos aéreos similares aos usados pelo Google Earth e Maps a região onde seu protagonista nasceu e passou parte da infância.

É a questão do espaço, afinal, que surge como tema central do melodrama dirigido por Garth Davis, que trata acima de tudo de uma história de famílias separadas de maneira abrupta pela distância. Depois de um dia à procura de trabalho para ajudar a mãe Kamla (Priyanka Bose), Saroo (Sunny Pawar) e seu irmão mais velho Guddu (Abhisek Bharate) estão em uma estação de trem quando o último se separa do primeiro para resolver algumas tarefas. Depois de passar um tempo à espera Saroo começa a procurar o irmão, mas, morto de cansaço, acaba adormecendo em um trem que horas depois sairá da estação com destino a Calcutá, cidade populosa cuja língua o garoto não sabe falar.

A partir deste ponto o filme acontece em duas partes: na primeira, o espectador acompanha a jornada de Saroo como menino de rua até ser recolhido pelo Estado e depois adotado por um casal (Nicole Kidman e David Wenham) na Austrália, que se empenha em providenciar a ele um lugar que ele possa chamar de lar; na segunda, a produção foca na procura do protagonista agora adulto (Dev Patel) para reencontrar a família e sua cidade natal enquanto está estudando hotelaria em Melbourne, enfrentando no processo os traumas provindos da separação na sua infância. Por mais que estas duas partes no roteiro de Luke Davies sejam diferentes em estrutura e uso de elementos - a situação em Calcutá depende muito da atuação do menino Pawar, ao passo que as cenas no presente passam a trabalhar com um maior número de dramas e personagens - o diretor é capaz de alinhá-las muito bem na narrativa dentro de um equilíbrio muito delicado, cuja principal conexão está em Saroo e na perda de seu lugar no mundo.

Para fazer isso funcionar, Davis trabalha os dois momentos pela metodologia da compensação, extravasando em uma aquilo que a outra se restringe. Enquanto no passado em Calcutá a história ganha ares de trama de sobrevivência e injustiça social, com um solitário Saroo precisando escapar de indivíduos e autoridades com interesses nada saudáveis para sua pessoa, a segunda parte se localiza mais como filme de trauma ao flertar com elementos introspectivos e até novelescos - o irmão adotivo de Saroo na Austrália, Mantosh (Keshav Jadhav/Divian Ladwa), desempenha uma subtrama típica do gênero na relação com os pais - ao enxergar nas relações do jovem estudante de hotelaria uma busca para aceitar seu próprio destino. O ponto de virada está, claro, na transição de ambientes intrínseca à adoção do garoto e em como ele é obrigado a suprimir todo o seu sofrimento para conseguir prosseguir na vida, algo que em Melbourne ressurge multiplicado.

Na tela, esta lógica assumida por Lion se traduz em uma produção correta naquilo que faz para gerar envolvimento emocional no público, mas que também soa segura demais em suas escolhas. Se Davis a princípio recorre ao espaço como forma de acentuar a temática da obra ele posteriormente volta a relegar o cenário à posição de fundo, seja porque o longa talvez não seja capaz de dar cabo desta narrativa ou porque o diretor não queira arriscar o que já é uma trama difícil de se adaptar.

Mas se ele não se consuma como filme de espaços, pelo menos em sua execução como melodrama Lion não deixa de ser bastante eficiente graças ao trabalho do elenco. Nos dois momentos da narrativa Davis consegue dar o espaço e dosar as performances de seus atores para que estes deem a sensibilidade necessária à história, traduzindo isso em dramas que se apoiam uns nos outros para construir os desdobramentos melancólicos da separação original, aqui uma tragédia ao qual cedo ou tarde será sentida por todos os envolvidos. Pawar e Patel se aproveitam muito bem de seu protagonismo, mas é nas performances de coadjuvantes como Kidman, Ladwa e Rooney Mara que se percebe o potencial de seu diretor, mesmo este estando dentro das restrições impostas pelo filme de estúdio que naturalmente se anuncia.

Nota: 6/10

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Crítica: Aliados

A dubiedade do olhar.

Por Pedro Strazza.

Diretor que se interessa por efeitos visuais digitais pelo menos desde os tempos de Uma Cilada Para Roger Rabbit e Forrest Gump, Robert Zemeckis vem se dedicando nos últimos filmes a conceber novas formas de aliar o potencial do digital com os elementos de drama e comédia que caracterizam suas obras. Depois de focar-se exclusivamente no CGI e na tecnologia de captação do movimento no início do século (o que gerou a "trilogia" formada por O Expresso Polar, A Lenda de Beowulf e Os Fantasmas de Scrooge), o cineasta passou a trabalhar em anos recentes o digital como elemento cênico, a partir da intrínseca relação de tais efeitos com sua fisicalidade questionável - a produção destas imagens, afinal, é artificial por essência, não chegando a existir de fato nos planos filmados.

Dentro desta lógica, Aliados é uma progressão natural naquilo que foi desenvolvido anteriormente pelo diretor em O Voo e A Travessia, duas produções que aproveitavam da relação do indivíduo com um cenário digital "falso" - o pouso forçado do avião no primeiro, a travessia entre as Torres Gêmeas do segundo - para trabalhar os arcos de seus protagonistas. A diferença é que agora Zemeckis corta os eventuais intermediários e passa a trabalhar o drama dentro desta relação por meio de uma história de espionagem cujo conflito central reside na aflição de seu protagonista frente a um momento que ele não consegue saber se foi real ou não.

Escrito por Steven Knight, o filme ambientado na Segunda Guerra se inicia com a chegada do oficial da inteligência canadense Max Vatan (Brad Pitt) em Casablanca, no Marrocos, onde irá executar uma missão de assassinato de um embaixador nazista junto de uma agente chamada Marianne Beauséjour (Marion Cotillard), uma exilada francesa designada para fingir ser sua esposa e pelo qual ele logo se apaixona. Ainda que não traga o principal drama da produção à tona, é logo neste primeiro ato que Zemeckis anuncia com velocidade e discrição suas intenções, desde a cena tensa de abertura até as referências visuais ao Casablanca de Michael Curtiz (clássico cuja elegância e propensão à desconfiança é tido como norte para o diretor aqui): todos os ambientes e pessoas que o protagonista habita e conhece na história são tão dúbios quanto o deserto digital no qual aterrissa de para-quedas no começo, uma regra a ter seus limites testados mais para frente.

O que não há de falso no cenário, pelo menos a princípio, é Beauséjour, que serve como guia para se estabelecer neste espaço instável e sempre vigiado e cuja figura ele logo se apaixona, culminando depois na relação em que o filme estabelece seu drama. Depois de cumprida a missão e passar um ano casado com Marianne, Max é informado pela inteligência britânica que sua esposa talvez possa ser uma espiã alemã, e caso a informação seja confirmada ele deverá executá-la.

Não convém dissecar as viradas que se sucedem à partir deste fato, mas é válido afirmar que Zemeckis constrói em Aliados o que é pelo menos até o momento o seu melhor filme na mesclagem de drama com efeitos digitais até o momento. Se em longas anteriores o cineasta esbarrava no desenvolvimento da história para chegar no que realmente o interessava (até chegar no clímax A Travessia soava um tanto quanto burocrático na execução, por exemplo), aqui o drama vivido pelos protagonistas se constrói em cima da dubiedade das evidências visuais de seu passado e na sua capacidade de provar ao mundo o quanto elas foram verdadeiras.

Para isso acontecer, o longa recorre bastante a elementos cênicos capazes de tornarem incerta não só a memória de Vatan como também do espectador, e é aí que entram os cenários e planos digitais de Zemeckis. Tão efetivos quanto os vários espelhos presentes na narrativa - o (belo) plano "intrusivo" do diretor da vez envolve o protagonista observando Beauséjour por um deles, e eles posteriormente são usados para acentuar a desconfiança crescente sobre a figura da esposa -, os efeitos visuais atuam na obra em sentido construtivo e destrutivo, criando em alguns momentos a impressão de simulação ao romance vivido pelos dois quanto para validar a paixão de ambos. Feita por computador, a tempestade de areia que surge no começo como oportunidade do casal consumar seu amor pela primeira vez é também a única comprovação real da existência do amor: é o único momento da história inteira em que Max e Marianne estão de fato sozinhos, sem serem observados por outros.

Saber que a experiência vivida foi real e ao mesmo tempo ser incapaz de prová-lo aos outros, dentro de uma relação construída no falso (os dois se conheceram em uma missão em que se disfarçam de marido e esposa, bom lembrar), é o que torna Aliados então uma obra tão curiosa em suas pretensões. Zemeckis alia muito bem o potencial dramático de seu elenco - Pitt com sua figura de galã aspirando às poses de Humphrey Bogart, Cotillard lidando com tranquilidade o viés enigmático de sua personagem - com o que busca de seus ambientes interiores luxuosos e exteriores artificiais para culminar em um filme onde o olhar é antes um elemento corrosivo e pertencente aos outros que um objeto central na validação dos atos. Dentro deste cenário tão incerto talvez o melhor seja ser condenado à cegueira, tal qual o trágico destino do oficial vivido por Matthew Goode na trama.

Nota: 8/10