sábado, 3 de junho de 2017

Crítica: Mulher-Maravilha

Debute da amazona nas telonas falta em catarse aquilo que tem de construção.

Por Pedro Strazza.

Embora tenha sido vendido pelo estúdio como o filme que traria novos rumos ao processo de adaptação do universo de personagens da DC Comics às telonas, a estreia da Mulher-Maravilha nos cinemas mantém como temática a que parece ter se tornado uma diretriz neste momento atual das incursões cinematográficas dos quadrinhos da editora. A super-heroína, afinal, carrega no longa de Patty Jenkins uma dúvida muito similar à vivida pelos protagonistas super-poderosos de O Homem de Aço e Batman vs Superman: depois de se descobrir como indivíduo superior e distinto do resto da sociedade, que figura ela deve desempenhar para inspirar outros? E por que ela deveria fazer isso?

São questões que se nos outros filmes estavam disfarçados em um tom alegórico aqui escancaram-se sem muita surpresa na própria história de origem que serve em simultâneo de introdução da personagem a este universo e ao grande público, pela primeira vez em 75 anos de existência da heroína testemunhando sua primeira aventura nas grandes telas. Nascida e criada entre as amazonas - definidas em algum momento da trama como únicas capazes de "ajudar os humanos a serem melhores" -, a princesa Diana (Gal Gadot) é a única criança na ilha de Themyscira e cresce sob a tutela da general Antiope (Robin Wright) e da supervisão de sua mãe, a rainha Hipólita (Connie Nielsen), para se tornar a maior guerreira de seu povo e única capaz de derrotar o deus Ares (Danny Huston), cuja ameaça cresce ao longo dos anos. A missão logo começa com a chegada do espião americano Steve Trevor (Chris Pine) à ilha e o ataque de tropas alemãs às amazonas, que leva Diana a viajar até a Europa da Primeira Guerra Mundial para impedir os planos de destruição empreendidos pelo deus da guerra e sua aliada, a Doutora Veneno (Elena Anaya).

A princípio, Jenkins e o roteirista Allan Heinberg parecem fazer em Mulher-Maravilha a história de origem em um modo tradicional, muito mais preocupados em apresentar a personagem e seus arcos que efetivamente se aprofundar nestes últimos. Ao longo da história, porém, a produção aos poucos coloca isso em cheque ao passar a colocar em questão a tarefa da protagonista para com a humanidade, aproveitando-se do clima de insegurança e miséria gerada nas comunidades afetadas diretamente pelos embates do conflito histórico como forma de evidenciar aos olhos de Diana a "crueldade humana". Este viés, que bebe um pouco dos quadrinhos escritos por George Pérez (cuja fase com a super-heroína realizava isso, por sua vez, à partir das instabilidades da época geradas pela Guerra Fria), serve ao longa como uma forma criativa de potencializar a escalada da personagem ao posto de figura mitológica ao qual a narrativa se constrói em cima, alimentando as dúvidas da amazona perante ao mundo para depois reafirmar seu heroísmo na catarse gerada pelas cenas de ação.

O interessante deste processo é que, conforme a história se desenrola, fica cada vez mais claro que o filme de Jenkins funciona nos momentos de dúvida e não nas resoluções destas. Se nos embates de sua protagonista contra os inimigos alemães a diretora se restringe a repetir o estilo de ação pautado pelos slow motions e plasticidade dos trabalhos de Zack Snyder, no drama ela se sai melhor ao enxergar em Diana uma figura condenada a lutar para sempre pela humanidade sem nunca conseguir encontrar paz. Nesse sentido, a relação da super-heroína com Steve é essencial aos rumos da narrativa, pois é somente com o soldado que ela encontra um igual - e não é por acaso que ela acabe se apaixonando pelo espião depois dele revelar não saber como é viver "sem a guerra".

É uma pena, então, que o longa mostre dificuldades sinceras para levar todas estas questões ao clímax que elas merecem, pois se na construção dos arcos Mulher-Maravilha é feliz em estabelecer a crescente até o ponto de explosão esta ambição se dilui na hora de entregar esta catarse. Presa em um emulador pobre e sem o mesmo apuro estético do estilo de Snyder, a direção de Jenkins sabota muitas vezes a escalada da obra neste ato de descoberta de sua protagonista como figura super-heroica em cenas de ação redundantes e incompreensíveis, cujos malabarismos realizados por Gadot (muito à vontade no papel) soam mais como demonstração vazia que o espetáculo construído na consagração que almeja ser. A consequência maior disso ocorre no terceiro ato, quando a produção acaba por se desmontar ao ter de recorrer apenas à ação de meio condutor da história, com tudo na tela virando uma grandiosa confusão estética.

São problemas, no entanto, que não escondem do longa suas forças, mas sim as bloqueiam de atingir todo o seu potencial. Filme que sem dúvida carrega um valor simbólico muito forte na questão de representação, Mulher-Maravilha tira da fórmula em construção para as produções do universo DC um impulso para sua protagonista no mesmo passo que contribui a esta elaboração ao diluir a gravidade do dilema de duvidar da própria condição sobre-humana pelo qual passam as mitológicas figuras principais destas histórias, cujas reviravoltas apostam cada vez mais em um apropriado tom meloso. É uma equação que ainda precisa de algum refino, mas cujos resultados já se sentem.

Nota: 6/10

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